mar 202016
 

Por Grupo de Trabalho em Gênero da Organização Resistência Libertária (ORL),

organização integrante da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

Dentro da sociedade capitalista a mulher é duas vezes escrava: é protegida, a tutelada, a “pupila” do homem, criatura domesticada por um senhor cioso e, ao mesmo tempo , é a escrava social de uma sociedade baseada no dinheiro e nos privilégios mantidos pela autoridade do Estado e pela força armada para defender o poder, o dominismo, o industrialismo monetário.”

Maria Lacerda de Moura.

É difícil precisar uma definição de feminismo, pois este termo traduz um processo de lutas que é atravessado por influencias de diferentes ideologias, desde concepções liberais-burguesas até distintas concepções de socialismo. Inicialmente, podemos estabelecer que o feminismo pretende a busca de igualdade política, econômica, social e sexual entre homens e mulheres, pessoas cisgeneras ou transgeneras[1]. Portanto, o terreno de contestação (e de afirmação) do feminismo são as implicações sociais das construções de gênero e das pessoas e símbolos envolvidos nesta construção.

Assim, podemos definir o feminismo como o conjunto entre a teoria e a prática que pretende a construção de uma nova sociedade, em que impere a igualdade de gênero. Quanto ao anarquismo, entendemo-lo como o objetivo de “transformar a atual sociedade capitalista burguesa em uma sociedade que assegure ao trabalhador os produtos de seus esforços, sua liberdade, independência, igualdade política e social. Esta outra sociedade será o comunismo libertário, no qual a solidariedade social e a individualidade livre acharão sua expressão plena, e no qual estas duas ideias se desenvolverão em perfeita harmonia.” [Plataforma Dielo-Truda]. Assim, entendemos que o anarquismo se aproxima do feminismo porque ambos tocam nas relações de poder instituídos na sociedade, visando destruir o poder autoritário e a construir o poder popular, desde baixo e à esquerda, sempre pautado nas lutas pela igualdade e contra as opressões, incluindo a igualdade de gênero.

Anarquistas associam o Estado ao poder centralizado, portanto, ao autoritarismo, e acreditam não ser possível chegar a uma outra sociedade através de etapas que conservem a existência do estado, pois acreditamos, como mostra a historia, que o estado não irá definhar depois de algum tempo.Conservá-lo é fortalece-lo e, enquanto ele existir, será autor de inúmeras injustiças e não permitirá que floresça a liberdade. Portanto, nós anarquistas não acreditamos ser possível a adoção de um meio que conflite com o fim pretendido, e desde já buscamos coerência com nossos objetivos finalistas: o socialismo libertário. Ainda como anarquistas acreditamos na interdependência estrutural das três esferas: política, econômica e social e na interseccionalidade das opressões.

Nós, feministas anarquistas, estamos inseridas nas fileiras das feministas classistas. Chamamos de feministas classistas aquelas que reconhecem que a sociedade é dividida em classes e identificam a luta de classes como seio da opressão, permanecendo na luta ao lado classe explorada.

Para nós, feministas anarquistas, as opressões que as mulheres sofrem surgem e se potencializam a partir de diversas esferas: econômica, social, política, étnica, racial e de diversidade sexual. Com isso, queremos dizer que além da desigualdade econômica, um feminismo anarquista deve compreender a construção das desigualdades de gênero sobre diversas interfaces. Aqui, precisamente, diferenciamo-nos do feminismo marxista, essencialmente economicista. Para as feministas marxistas, a opressão das mulheres sob o capitalismo tem uma base essencialmente econômica, mas para nós, feministas anarquistas, a opressão das mulheres no capitalismo não tem uma base essencialmente econômica. É claro que fatores de ordem econômica agem na construção das opressões de gênero no capitalismo. Basta lembrar o trabalho doméstico da mulher, que não é pago, mas que agrega valor, além da jornada de trabalho apropriada diretamente pelo empregador.

O capitalismo nos explora duas, três ou quatro vezes mais, quando nos força aos dois trabalhos: de produção e o de reprodução. O trabalho de produção está associado à produção de mercadorias e serviços, em espaços públicos ou privados[2]. O trabalho de reprodução diz respeito tanto à obrigatoriedade da função biológica da reprodução, quanto à função socializada de cuidar da casa e dos filhos, assim como satisfazer as necessidades masculinas de intimidade e satisfação sexual. Esses trabalhos de reprodução foram historicamente ocupados por mulheres. Atualmente, mesmo quando a mulher branca se aparta do trabalho de reprodução, ocupando-se exclusivamente do trabalho de produção no capitalismo, deixa uma mulher negra nesse posto, mais um sintoma de uma sociedade que conjuga capitalismo, machismo e racismo. Sempre é associado à mulher os trabalhos de produção e reprodução. Assim, por exemplo, no Brasil as mulheres costumam receber salários menores que os dos homens, nos mesmos postos de trabalho, além de serem excluídas de certas posições consideradas mais apropriadas ao sexo masculino.

Quando o gênero e a raça se entrelaçam, a opressão toma seu posto mais cruel. A opressão da mulher negra pelo Estado e pelo capitalismo adquirem outras formas de expressão. O racismo, marca de um país ainda escravocrata, reserva às mulheres negras, mais que às brancas, serviços domésticos sem direitos trabalhistas etrabalhos informais. São as mulheres negras as mais presentes no sistema penitenciário brasileiro, as que criam seus/suas filhos/filhas sozinhas, as mais espancadas pela polícia, as que mais enfrentam os senhores de engenho e os capitães-do-mato. São as mulheres negras as que mais sofrem com as violências institucionais do Estado, desde as doenças transmitidas por falta de saneamento básico nos bairros da periferia, até a ausência de serviços de saúde e educação em seus bairros. São as mulheres negras que mais sofrem em revistas íntimas vexatórias nas filas dos presídios brasileiros quando vão visitar companheiros e filhos.

As percepções mais recentes têm mostrado, contudo, que às atitudes tradicionais a respeito da mulher somam-se outras formas de machismos, nas quais a antipatia a elas dirigida tem se expressado de forma simbólica ou indireta. Assim, hoje podemos distinguir entre uma forma de machismo antigo (mas ainda presente) e uma forma de machismo percebido recentemente. O machismo antigo define-se pelo endosso a papéis de gênero tradicionais, tratamento diferencial entre mulheres e homens e estereótipos sobre a menor competência feminina; enquanto o machismo percebido recentemente associa-se à negação de que a discriminação contra a mulher ainda exista e a um antagonismo contra as atuais lutas da mulher por maior inserção nas lutas sociais. O machismo percebido recentemente, portanto, baseia-se, também, em sentimentos negativos sobre as mulheres, muito embora eles sejam mais encobertos e relacionados a práticas mais contemporâneas.

Partimos da certeza que vivemos em uma sociedade patriarcal que tem em sua gênese a propriedade sobre o corpo e a vida das mulheres. Para nós feministas anarquistas, o patriarcado só será destruído com a derrubada do capitalismo. Assim, temos uma ponte entre o feminismo e o anarquismo, em que ambos contestam as relações de poder advindas de construções sociais de gênero, poder econômico, social ou simbólico.

Por isso, para nós o anarquismo não existe sem o comprometimento com a luta feminista.No entanto, não é suficiente reconhecer que a anarquia é “um lindo ideal”. É necessário querer chegar à anarquia através do combate às opressões que existem hoje, ou ao menos guiar esse combate para nos aproximar da anarquia, tratando de atenuar o domínio do Estado, do capitalismo e dos privilégios de identidade de gênero, raça, e orientação sexual, reivindicando sempre mais liberdade e mais justiça social.

Maria-Lacerda-de-Moura-anarquista2

[1] Pessoas trangêneras nascem com um sexo que difere do socialmente vinculado à identidade de gênero que elas se reconhecem. Pessoas cisgêneras nascem com um sexo que coincide com o socialmente vinculado à identidade de gênero que elas se reconhecem. Compreendemos por mulheres as pessoas que se identificam com essa identidade de gênero, portanto, mulheres cisgêneras ou transgêneras.

[2] Se analisamos a história da América Latina, não é correto apontar que historicamente foi papel apenas do homem executar trabalhos de produção em espaços públicos, sob pena de estarmos nos apropriando de um feminismo branco e eurocêntrico. As mulheres negras, escravas, sempre executaram trabalhos de produção, nos canaviais e cafezais. As mulheres negras nunca foram associadas ao sexo frágil, relegadas apenas ao espaço do lar.

mar 092016
 

“Somos escravas dos escravos. Exploram-nos mais impiedosamente que aos homens.”

Lucy Parsons.

Resgate histórico sobre 8 de Março, Dia Internacional da Mulher:

Possuímos uma cultura do esquecimento, de apagamento de nossa memória, somos fruto de uma história que gerações antepassadas construíram. Por isso é de suma importância que nós, enquanto anarquistas feministas organizadas, façamos o resgate e a preservação cultural da história da luta da classe oprimida, das lutas empregadas por grandes mulheres que não se submeteram ao regime patriarcal dominador de sua época.

Datas importantes e que foram históricas na luta de classes, como o 8 de Março e o 1° de Maio, são “comemoradas” sem que haja o conhecimento suas origens. Sabemos que a classe dominante tem sua própria versão da história, versão essa que apaga deliberadamente as lutas sociais contra a dominação e exploração. Ainda mais por isso é que devemos nos apropriar da história de nossa classe, valorizar suas conquistas e aprender com seu movimento.

8 de Março:

O Dia internacional de luta das mulheres tem origem em 8 de Março de 1857. Em um episódio de muita repressão e violência empregadas contra a luta das mulheres operárias do setor têxtil e ao seu movimento grevista. As operárias haviam ocupado a fábrica em que trabalhavam, reivindicando redução da jornada de trabalho, equiparação salarial aos dos homens, que chegavam a receber três vezes mais pelo mesmo tipo de serviço, e mais dignidade no ambiente de trabalho. Na cidade de Nova Iorque, os patrões, em resposta ao movimento, trancaram as operárias e incendiaram a fábrica, carbonizando e matando cerca de 130 tecelãs.

Se vivemos sob a lógica de dominação e exploração, que faz milhares de pessoas viverem submetidas às várias formas de opressões, também podemos ter a certeza de que são as mulheres as que mais sofrem com toda a desigualdade e a injustiça social do capitalismo. Elas já são exploradas enquanto trabalhadoras, o que se intensifica ainda por serem mulheres numa sociedade regida pelo machismo.

Conjuntura política de ataques às mulheres:

E hoje, em uma sociedade em que o ascenso da direita conservadora é inegável, vemos os ataques às de baixo se intensificarem ainda mais. Um dos ataques é o Projeto de Lei 5069/2013 de autoria do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), que trata sobre a prática do aborto, em que “Tipifica como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto.” Prevê pena de prisão de 4 a 8 anos, para quem auxiliar de forma direta ou indireta a gestante na prática do aborto. E isso se acentua ainda mais em relação ao auxílio e/ou orientação por parte de profissionais, com penas entre 5 a 10 anos de prisão.

Este deve ser um momento de unificação dos setores da classe oprimida para reagir contra os ataques dos de cima. Só com muita organização e força social nós, mulheres, avançaremos em nossas conquistas econômicas e políticas e arrancaremos das forças do capital e do Estado, os direitos que sempre nos foram negados durante a história da luta de classes.

Podemos dizer que o ano de 2015 foi de avanços para a luta das mulheres. Além da 5ª Marcha das Margaridas, em agosto de 2015, que reuniu mulheres indígenas, quilombolas e agricultoras de todo o Brasil, também em Brasília ocorreu a Primeira Marcha da Mulher Negra, que serviu para dar mais visibilidade para quem até então “não aparecia na foto carregando o piano”, como disse Juliana Gonçalves, jornalista e uma das coordenadoras do movimento em São Paulo.

Curdas e Zapatistas:

Em outros dois pontos do globo terrestre, um tanto quanto distantes do Brasil, estão em curso processos muito interessantes de auto-organização e empoderamento feminino, em que podemos nos debruçar e atentar um pouco mais, servindo de referência e inspiração.

Um deles é o processo revolucionário curdo, em que as mulheres, em uma região historicamente dominada e regida por um machismo perverso, que as impedia de mostrar o próprio rosto, vêm protagonizando um papel central na luta contra o Estado Islâmico e o Estado Turco, dois grandes inimigos do povo curdo.

Mais próximo a nós, há as Zapatistas, no México, onde desde 1994 as mulheres indígenas vem chamando a atenção do mundo todo na luta em defesa de seus territórios e de sua cultura. Como se vê na Ley Revolucionária de Mujeres de EZLN, “Noveno: Las mujeres podrán ocupar cargos de dirección en la organización y tener grados militares en las fuerzas armadas revolucionarias.”

Neste 8 de Março, queremos chamar atenção especial para o assassinato de Berta Cáceres. Ela foi coordenadora Geral do Conselho Cívico de Organizações Populares e Honduras Indígena (COPINH). Havia repetidamente manifestado-se contra as ações e intenções de ambas as atuais concessões governamentais de recursos naturais e empresas transnacionais estrangeiras nefastas através da construção de barragens e captura dos recursos dos povos indígenas. Foi assassinada em sua casa, em 03 de março. Por ela, nenhum minuto de silêncio. Todas nossas vidas de luta!

A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) vem a público dizer que faz parte, com todas as mulheres, desta luta contra o sistema capitalista patriarcal e pelo resgate da memória histórica das lutas das mulheres. Chamamos todas as pessoas para a luta em defesa da mulher trabalhadora, da mulher ribeirinha, da mulher indígena, da mulher camponesa, da mulher quilombola, da mulher negra, da mulher LGBT, de todas as mulheres exploradas e oprimidas!!

zapatistas  curdas

VIVA 8 DE MARÇO!!

VIVA BERTA CÁCERES!!

VIVA AS CURDAS E ZAPATISTAS!!

NÃO AO PL 5069/13 !

Mulheres da CAB, 8 de março de 2016

mar 012016
 

As mulheres da Organização Resistência Libertária organizaram um calendário de atividades para comemorar o Dia Internacional de Luta das Mulheres. As atividades acontecerão em Sobral, Pentecoste e Fortaleza. Em Sobral, a atividade será organizada pelo Movimento Social Fome por meio do seu núcleo Mulheres do Gueto que Lutam sem Medo. A nossa disposição é de fortalecer a luta e a autoorganização das mulheres na Cidade e no Campo, nas escolas e nos bairros! Juntas derrubaremos o capitalismo, o estado e o patriarcado, fazendo florescer uma sociedade justa, socialista e libertária para todas as pessoas! Fiquem de olho na programação e colem conosco!

Construir mulheres fortes!
Construir um povo forte!

Atividades do 8 de março - 2016 ORL

fev 232016
 

logo cab pequeno

CARTA PÚBLICA DA COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA SOBRE AGRESSÕES DE GÊNERO EM ORGANIZAÇÕES ANARQUISTAS ESPECIFISTAS

“A validade da luta é integral. Não somente de gênero, mas toda luta que vá de encontro ao sistema. Por isso mesmo a luta pela igualdade de gênero é um elemento fundamental. Reconhecer que não pode haver justiça, não pode haver democracia, não pode haver relações horizontais, se as mulheres não estão participando. Ela disse: já basta! Para haver liberdade, tem que ser livre todos e todas.”

Mulheres Zapatistas

Tendo em vista a importância do processo de crítica e autocrítica para a construção de coerência entre nossos meios e fins, a Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) vem publicamente reconhecer que em algumas organizações que compõem a CAB ocorreram casos de agressões de gênero, envolvendo agressores e vítimas. Decorrente desses casos, as fragilidades de prática e conduta de nossas organizações relativas às opressões de gênero se evidenciaram. Essas fragilidades foram percebidas não só internamente, mas também por diversos grupos de esquerda que combatem tais práticas. Assim, esse elemento reforça ainda mais a importância da luta feminista que vem cada vez mais escancarando e lutando contra as opressões também no campo da esquerda.

São valiosos os frutos que estão se originando desse processo pessoal e coletivo de autorreflexão e autocrítica que vêm nos acompanhando. Entendemos a necessidade de mudança quanto a nossa compreensão acerca das questões de gênero e, sobretudo, como essa problemática vem sendo trabalhada em nossas organizações e nas práticas cotidianas individuais e coletivas.

É importante comunicar que localmente as organizações tentaram, dentro de suas possibilidades, dar respostas aos casos de opressões de gênero que ocorreram. Entretanto, tais tentativas foram, na maioria dos casos, insatisfatórias. Decorrente dos erros, a CAB passou a questionar seriamente sobre que tipo de anarquismo organizado estávamos construindo, pois eram vários casos graves de opressão de gênero relatados pelas organizações e a incapacidade de responder a elas em coerência com nossos princípios e valores era incontestável.

O arsenal teórico de nossa corrente, construído na história da classe oprimida, não admite opressões de nenhuma natureza. Assim, se pretendemos construir organizações revolucionárias e se acreditamos que cada passo que damos deve ser coerente com nossos princípios e objetivos finalistas, devemos combater todos os tipos de opressões de maneira orgânica. Devemos ser firmes e atuarmos com rigor no combate às opressões, seja nas organizações políticas que construímos, nos movimentos sociais, e também em nossas posturas pessoais em âmbito público ou privado.

O movimento da classe trabalhadora, do qual o anarquismo é parte, tradicionalmente lutou por sua emancipação frente à escravidão econômica e a exploração. Entretanto, em muitos casos, parece que a única identidade unificadora foi construída em torno do homem branco trabalhador industrial. Decorrente disso houve o silenciamento ou a minimização de vozes que não cabem facilmente nessa identidade.

Assim, ficou claro para nós que, ainda mais que a ausência de meios coletivos concretos e orgânicos de resolução eficaz das agressões de gênero, o problema tem raízes mais profundas: a violência estrutural contra as mulheres e quaisquer pessoas que não reivindicam a masculinidade hegemônica, independente do sexo biológico, é algo vivido rotineiramente nos espaços em que deveria ser combatida.

A violência estrutural é um mecanismo de controle sobre as mulheres. Não apenas como forma extrema, mas também na forma de relações normalizadas e naturalizadas. Ela permeia todas as esferas do cotidiano: as relações pessoais, a percepção e o uso do espaço público, o trabalho, a autoridade reconhecida, a percepção dos próprios direitos ou a ausência deles, a relação com o próprio corpo e a sexualidade, etc.

A influência ideológica dominante está profundamente enraizada em nossos comportamentos e, mesmo que apontemos a importância da luta feminista, o embasamento organizacional desta luta depende que os companheiros estejam dispostos a reconhecer sua posição de privilégio enquanto homens em relação às mulheres de sua própria classe e, a partir desse reconhecimento, que eles saiam da zona de conforto patriarcal. Isto significa refletir sobre onde suas posturas reproduzem a lógica do machismo, pois quando nos reivindicamos anarquistas devemos estar dispostos a abrir mão de todos os nossos privilégios, sendo eles de classe ou gênero. Reconhecer que a violência machista é estrutural é o começo para criar as condições necessárias de evitá-la. Responsabilizar-nos quando acontece em nosso entorno é também essencial para sua superação.

UM PASSO PARA REFLEXÃO

Tendo em vista a constatação de que a violência estrutural de gênero permeia toda a sociedade – inclusive as organizações que compõem a CAB – faz-se necessário o exercício de reflexão, principalmente de companheiros homens, brancos e heterossexuais, acerca da desconstrução de seus privilégios. Entendemos que a superação do machismo somente será possível modificando a estrutura da sociedade, mas devemos combate-lo desde já.

Um texto que merece destaque é o de Las Afines que sistematiza em três pontos as condutas geralmente adotadas por grupos e coletivos ao tratar da violência de gênero, muitas vezes gerado pela falta de profundidade e sensibilidade.

O primeiro ponto trata-se de dar aos casos de violência contra as mulheres um tratamento de problema privado e pessoal, a ser resolvido entre dois. Entende-se o problema como sendo um assunto turvo onde não há verdades, mas apenas duas experiências muito distintas de uma mesma situação confusa, uma vez que a questão perpassa certa complexidade de nível individual, que são extremamente válidas. Contudo, tendo essa compreensão, nós perdemos a possibilidade de intervir politicamente e é justamente disso que se trata quando falamos de violência machista. É necessário, portanto, que o problema seja trabalhado de modo a promover resoluções políticas coletivas.

O segundo ponto é sobre o uso de termos atenuantes e/ou relativismos na descrição do ocorrido e na definição dos atores envolvidos. Chamemos as coisas pelo seu nome: agressão é o que descreve o fato, agressor é quem a comete. Fazer isso não deve ser um obstáculo invencível nem tampouco uma opção reducionista que negue outras facetas que possa ter uma pessoa. O texto adverte também o problema de atribuir à mulher agredida uma posição de incapacidade, em que tudo que diga ou faça a vítima será tido como reação emocional, nervosismo, impulsividade e defensividade. Ressalta que atitudes paternalistas e protecionistas com a pessoa que ocupa o papel de vítima criam obstáculos para sua participação em plano de igualdade no processo coletivo.

Por fim, o terceiro ponto colocado pela autora se refere à priorização da unidade do coletivo e do consenso por medo ao conflito. Coloca que neste ponto a problemática é quando se tem uma “decisão coletiva”, quando boa parte do grupo não possui uma reflexão própria prévia e cujo discurso passa por simplificações, ou ainda quando há posturas irreconciliáveis e excludentes entre si. O objetivo deste “consenso” é manter certa coesão no grupo e dar uma ilusão de legitimidade às decisões. Cabe considerar que, de início, só há uma decisão política possível: a de que o agressor deve ser afastado (e não expulso indefinidamente) de todos os espaços comuns com a vítima. A partir disso, a organização deve assumir sua responsabilidade coletiva na gestão adequada da violência de gênero de modo crítico e reflexivo, trazendo à tona todos os conflitos e divergências internas existentes. Decidir coletivamente não necessariamente significa mediar, pacificar ou compreender.

Notamos que o posicionamento das organizações da CAB em relação às agressões sofridas por mulheres foi permeado por essas questões já citadas. Questionar as companheiras de modo insensível, sem antes tomar o cuidado com seu acolhimento; relativizar denúncias pelo fato de o agressor ser um militante antigo ou importante para a organização; resolver a questão pelo método da guilhotina, ou seja, expulsando ou afastando indefinidamente um militante ao invés de construir caminhos para a autocrítica (individual e coletiva); tomar decisões guiadas pelo pânico coletivo instaurado pelo medo de uma deslegitimação pública da organização. Em nossa avaliação, essas são posturas que expressam certo nível de opressão e que precisam ser superadas.

São inaceitáveis as situações em que uma pessoa oprimida pede socorro aos seus companheiros e a primeira reação é ser questionada antes mesmo de ser acolhida. Questionamentos do tipo “mas o que você fez pra ele gritar com você?” não devem ser feitos, uma vez que perpetuam a violência de gênero, apontando a culpa da agressão à vítima. Além disso, a pessoa agredida possivelmente já está muito abalada e passar por um processo nesses moldes seria ainda mais penoso. Consideramos que comportamentos como estes são uma tática de manutenção do privilégio patriarcal, sendo ela deliberada ou não.

De outro modo, as organizações devem dar todo acolhimento e suporte à vítima e junto com ela tomar as decisões cabíveis. Cientes disso, criamos metodologias orgânicas para encaminhar situações que venham a ocorrer. A simples expulsão de um militante agressor não garante que comportamentos machistas não se repetirão dentro do coletivo e menos ainda que essa mesma pessoa não volte a cometer opressões fora dos espaços internos da organização.

***

O machismo está incutido em nossas subjetividades. Ou seja, a desconstrução individual e coletiva não é objetiva e mecânica. O machismo não vai ser extinto do meio social como um tumor é retirado do corpo. É dever de uma organização revolucionária e feminista lidar com essas questões, não somente pela intensão de manter uma boa imagem pública. Essa postura seria cínica e antiética com as companheiras.

A CAB compreende que é necessário construir movimentos e organizações que deem voz a todas as pessoas oprimidas. Em termos práticos, as agressões de gênero ocorridas no seio das organizações especifistas nos levaram ao entendimento de que é necessário criar instrumentos em nossa estrutura interna para dar conta dessas problemáticas e um programa de formação e conscientização contra as opressões. É o que estamos fazendo.

Entendemos que formações teóricas, sozinhas, não darão conta da superação das relações de dominação. Acreditamos que nossas organizações são fruto das experiências históricas da classe oprimida, mas também de nossas experiências atuais. Por isso, devemos reconhecer que práticas opressoras são incoerentes tanto em nível privado quanto em nossa prática e conduta política.

Tendo isso em vista buscamos discutir, reforçar e deixar bem esclarecido questões sobre ética e postura militante. Mais do que isso, buscamos incorporar a prática feminista ao nosso cotidiano e acreditamos que é imprescindível que os homens de nossas organizações incorporem, façam ventilar esse debate e desenvolvam novas posturas e comportamentos. Esse processo deve ocorrer com todas as pessoas e, assim, fortalecemos a autorreflexão e autocrítica sincera, incentivamos e apoiamos práticas de identificação de posturas opressoras dentro dos nossos espaços coletivos. Contudo, não devemos cair em práticas punitivistas. Endossamos e buscamos implementar o uso de comissões de ética para tratar as questões de violência de gênero e outras opressões. Enfatizamos que não são somente as mulheres que devem ser responsáveis pelo feminismo. Os homens – sem se sobrepor às mulheres nessa luta – devem contribuir, de modo a promover, dentro e fora das organizações, nossa linha de combate às opressões. É importante fortalecer as companheiras para que elas mesmas possam apontar as múltiplas facetas da opressão de gênero que sofrem.

Não criamos a ilusão de que práticas machistas deixarão de existir no seio de nossas organizações imediatamente. Estamos trabalhando com firmeza, individual e coletivamente, para criar espaços organizativos seguros, confortáveis e capazes de dar voz e vez às pessoas historicamente oprimidas. Temos como desafio criar um movimento revolucionário capaz de extinguir todas as opressões e criar coletivamente uma sociedade emancipada.

Reconhecer nossas limitações e fragilidades nos leva à urgência de dedicar esforços a uma prática política feminista, coerente e comprometida com a construção de uma sociedade igualitária e libertária de fato. O Poder Popular se constrói desde baixo e temos a certeza de que, com ética, honestidade e compromisso podemos gritar lado a lado contra um inimigo maior, e isso deve bastar para nos considerarmos iguais em nosso meio.

O ANARQUISMO SERÁ FEMINISTA OU NÃO SERÁ!

Fevereiro de 2016

Las Afines. Quem teme aos processos coletivos? Notas Críticas sobre a gestão da violência de gênero nos movimentos sociais. Tesoura para todas, p. 57-67. Nota da CAB sobre violência de gênero.

 

dez 192015
 

Declaração do II Seminário de Gênero: Mulheres do Gueto que lutam

Nós, integrantes do Movimento Social Fome, por meio do seu Núcleo Feminista Mulheres do Gueto que lutam sem medo, da Organização Resistência Libertária (ORL/CE), da Organização Anarquista Zabelê (OAZ/PI), reunimo-nos no II Seminário de Gênero, em Sobral/CE, para discutir a construção do feminismo nos movimentos sociais autônomos, defendendo uma construção desde baixo.

Nessa oportunidade, renovamos nossa disposição de enfrentamento às formas de violência de gênero: física, sexual, simbólica, psicológica e patrimonial. Alargando nossa compreensão sobre identidade de gênero e diversidade sexual, tratamos das violências sofridas por mulheres transexuais, e travestis.
Tendo em vista nossa atuação social, concentramo-nos em discutir o enfrentamento às violências de gênero na periferia urbana, que atingem, sobretudo, mulheres negras. Essa violência pode ser nos espaços privados, de forma interpessoal, ou nos espaços públicos, por meio do Estado, com a falta de políticas públicas de saúde e de cultura que promovam a igualdade de gênero.

Para compreender o histórico do movimento feminista, aprofundamo-nos no feminismo anarquista, discutindo conceitos do anarquismo e a relação dessa ideologia com as lutas de gênero nos movimentos sociais. Tivemos contato com a vida de mulheres anarquistas, conhecidas pela história como “mais perigosas que mil rebeldes”, dentre elas Louise Michel, Emma Goldman, Margarida Ortega, Mujeres Libres da Espanha, Maria Lacerda de Moura, Espertirina Martins, Sônia Oiticica, Dandara.

No segundo dia, organizamos um espaço misto, discutindo com todo movimento social a desconstrução do machismo nos espaços de militância.
Por fim, afirmamos o compromisso de enraizar o feminismo. Permaneceremos lutando por igualdade de gênero, respeitando as identidades de gênero e a diversidade sexual, criando espaços que contribuam para a emancipação de nós, mulheres, e do nosso povo. Sabemos não seremos completamente livres no sistema capitalista e que a “liberdade não se pede, conquista-se”, portanto, permaneceremos firmes na luta em busca dessa liberdade, de justiça e da igualdade social.

Construir mulheres fortes!

Construir um povo forte!

Construir o poder popular!

Terrenos Novos, 13 de dezembro de 2015

nov 132015
 

 

 

Contra a violência de gênero em organizações políticas!

A resistência é a vida!

Organização Resistência Libertária [ORL/CAB]

 

“Saúdo a todas aquelas valentes mulheres (…). O velho mundo deveria temer o dia em que aquelas mulheres finalmente decidam que já tiveram o bastante. Aquelas mulheres não fraquejarão. A força se refugia nelas. Tomem cuidado com elas… Tomem cuidado com as mulheres quando se cansem de tudo o que as rodeia e se levantem contra o velho mundo. Nesse dia um novo mundo começará.”

Louise Michel (1830-1905)

Toda forma de opressão e autoritarismo é nociva. E nós, anarquistas, sabemos – ou deveríamos saber – disso melhor que ninguém. Buscamos a liberdade, essa liberdade agregadora que aumenta quando quem está perto de mim também a vive. Tentamos a todo o momento cumprir ou proporcionar realização à ideia de que a liberdade da outra pessoa estende a minha ao infinito… certo? É, parece que nem sempre.

Sabemos também que possuímos valores enraizados, incentivados pela mídia e pelo Estado, valores que vêm de uma sociedade opressora por todos os lados (elitista, patriarcal, racista, extremamente homofóbica, individualista, e tanto mais). Sabemos, mas parecemos não nos importar com nossa propensão ao machismo e à homofobia, que também temos, pois vivemos em uma sociedade patriarcal e heteronormativa. Assim, muitas vezes utilizamos o rótulo de pessoas libertárias sem nos importarmos com as diversas esferas que a liberdade deve proporcionar.

Quando falamos de luta de classes, o primeiro exercício que fazemos com a pessoa oprimida é reconhecer (de forma lenta ou rápida) que ali há uma relação de opressão, que a resposta não é virar um opressor, que devemos diariamente lutar para que esse tipo de relação não possa mais acontecer. Resumidamente seria isso, certo?

Pois bem, com o gênero não temos feito isso. Com sinceridade, metade das mulheres sequer reconhecem as coisas que vivem como opressões, da mesma forma que várias vezes a pessoa trabalhadora não se vê oprimida. Existe até a imagem de empresárix bonzinhx! O capitalismo tem dessas facilidades, de mascarar as relações e fazer você pensar que ela não está ali. E de individualizar o conflito, de dizer que o problema foi que alguém é assim, de que naquele dia tinha acontecido tal coisa, e que cada uma dessas ocorrências estão isoladas, como se não fossem ações em massa.

A opressão de gênero, comumente chamada de machismo, pode se dar nas relações interpessoais ou institucionais. Nas relações interpessoais ela ocorre, sobretudo, nos lugares pretensamente privados – mas pode acontecer também no âmbito de uma Organização Política, por exemplo. O machismo interpessoal relaciona-se às atitudes e condutas negativas que os homens dirigem às mulheres nas relações interpessoais. Já o machismo institucional dá-se com a violência de gênero perpetrada pelo Estado, muitas vezes através da falta de políticas públicas ou via ações do judiciário.

Lembramos que a violência de gênero possui várias interfaces, que se separam de forma didática, mas inevitavelmente aparecem em nossas vidas (de nós, mulheres) de forma entrelaçadas: violência física, psicológica, sexual, simbólica… Portanto, não é porque você nunca espancou ou estuprou uma mulher que isso significa nunca ter cometido uma violência de gênero.

Diante de tudo isso, propomos parar. Sabemos que é difícil inclusive encontrar em nós mesmos certos valores e crenças. É um processo de autoavaliação e de prática constantes. Da mesma forma que a própria luta de classes o é. Não nos perguntamos quando nossas atitudes favorecem ou não uma emancipação? Devemos perguntar o mesmo para todas as esferas de nossa vida, e aqui incluímos em tom permanente nossas preocupações com as questões de gênero.

Quase toda mulher (senão todas) passou por opressões que a construíram e que hoje as formam, independente se lutam contra isso ou não. É-nos ensinado a baixar a cabeça, a não criar conflitos, a cuidar apenas da casa, a falar baixo, a não se impor, a cuidar da beleza, a não confiar nas outras mulheres, a sermos sempre as culpadas, a ter rixas, e preocupar-se apenas com uma boa relação amorosa, a evitar espaços públicos etc. Que mulher de respeito não é estuprada e que aquela que foi, na verdade, estava com a roupa errada. Se estivesse “bem vestida” estava no lugar errado. Se estiver no “lugar certo” era no horário errado. A sociedade sempre busca justificar o estupro colocando a culpa na vítima.

E nunca a culpa é da vítima. Nunca!

Da mesma forma que posso não entender completamente o que é trabalhar nas condições precárias de um minério, mas posso me solidarizar, haverá coisas que os homens não entenderão completamente. Não entenderão completamente que as possibilidades de violência de gênero são muitos sutis. Compreendemos que é difícil quebrar com o que nos foi ensinado e aquilo que a sociedade reforça todos os dias. Não entenderão que, dentro de uma Organização Política ou de um movimento social, por exemplo, serem as mulheres constantemente chamadas de mandonas e chatas, e com homens sendo chamados muitas vezes “apenas” de líderes e persistentes é sim uma violência.

Por falar em Organização Política, é importante reafirmar o que entendemos por “perfil militante”, ou seja, as qualidades que, ao nosso ver, reúne uma boa militante ou um bom militante. Afinal, nessa jornada de militância vimos muitos homens serem afastados e/ou desligados de organizações políticas por violências de gênero perpetradas contra mulheres dentro ou fora dos espaços de militância. Da mesma forma, vimos homens serem “perdoados”, “daremos outra chance”! Em um ou em outro caso, ainda que haja lamentação, a justificativa se dá, muitas vezes, sob alegação de que o camarada tem “perfil militante”. Para nós, um perfil militante é definido não só como a capacidade de disciplina, de organização, de inserção social e/ou de formação política. Um “perfil militante” também agrega, como condição, trabalhar o machismo dentro de si, evitando perpetrar violências de gênero em todos os âmbitos de nossas vidas, família, trabalho, organização política e movimentos sociais em que atuamos. Da mesma forma, atuar com repúdio a homofobia. Assim, um militante machista ou homofóbico não tem, em nossa concepção, um “perfil militante”. Isso não significa necessariamente, ou expressamente, que se precise ser desligado ou afastado. Afinal, é o grau da violência que deve ditar como uma Organização Política deve lidar com isso.

Não ter noção desses elementos como problemas, ou seja, não questioná-los ou problematizá-los, faz com que nós reproduzamos esses padrões e atitudes sem hesitar. Dar a essas questões um caráter de secundário faz com que elas se repitam, e massacrem cada vez mais militantes ao nosso lado, massacrando também qualquer ideal que tenhamos sobre Liberdade. Reproduzir opressões não leva à liberdade, mas à ilusão. Não queremos nos enganar, queremos mudanças reais, mesmo que lentas, porque como sempre dizemos: é preciso – sempre – manter uma coerência entre os fins e os meios. Em outras palavras, sobre a forma como estamos caminhando em direção ao mundo novo que ainda vemos ao longe, mas que idealizamos e construímos neste instante.

 

Construir mulheres fortes!

Construir um povo forte!

 

 

Organização Resistência Libertária [ORL]