maio 012014
 

A Organização Resistência Libertária, integrante da Coordenação Anarquista Brasileira [CAB], iniciará o Ciclo de Debates Anarquistas e convida a todas e todos militantes, estudantes e trabalhadorxs para o debate sobre o 1º de Maio, Dia de Luta das Trabalhadoras e Trabalhadores.

Esse evento será o primeiro de muitos ao longo do ano, que visam:

– Discutir e difundir o Anarquismo como uma ferramenta de luta das classes oprimidas;
– Socializar o debate da Organização Resistência Libertária junto com nossxs apoiadorxs e demais lutadorxs que estão conosco no dia a dia.
– Ampliar o debate sobre o Anarquismo Especifista, e fundamentalmente sobre a necessidade da Organização Política Anarquista; 

O evento acontecerá no próximo sábado, às 09 horas no Plebeu Gabinete de Leitura, na Rua Floriano Peixoto, 735, 5º Andar (Prédio da Associação Cearense de Imprensa – ACI)


abr 082014
 

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Difundimos a mensagem de denúncia dos atentados e ameaças que companheiros e companheiras da Federación de Organizaciones de Base (FOB) de Rosário têm sofrido por parte do crime organizado articulado com membros do Estado.

Há praticamente dois anos a militância da FOB vem recebendo ameaças de vários tipos por fortalecerem um processo de luta popular constituída desde a base, independentemente do Estado, de partidos políticos, e de perspectiva transformadora. Nas últimas semanas essas ameaças têm se intensificado e adquirido maior materialidade.

Denunciamos a ação do crime organizado local, que atua conjuntamente com membros do Estado argentino, na tentativa de frear as lutas dos movimentos populares combativos do país.

Enviamos desde nossa região os mais fortes votos de solidariedade e apoio. Estamos atentos a qualquer coisa que ocorra a nossos companheiros e companheiras! A solidariedade é mais que palavra escrita! Arriba l@s que luchan!

Coordenação Anarquista Brasileira (CAB)

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Nota original: http://www.anarkismo.net/article/26876
Tradução: FARJ

 

 

Atentado e ameaça contra militantes sociais da FOB em Rosario, Santa Fe
FOB Rosario

No domingo de 23 de março, perto das 18h, a militante social da Federação de Organizações de Base (FOB), Iris Velásquez, sofreu um atentado na porta de sua casa, quando viu que sua moto havia sito totalmente incendiada. Ela já havia recebido uma ligação para ameaçá-la e advertindo-a do atentado. Minutos mais tarde as mesmas pessoas que realizaram esta ação ligam para o companheiro Emilio Crisi para ameaçá-lo de morte e adverti-lo que ele seria a próxima vítima.

Nestes últimos anos temos visto os ataques de quadrilhas de narcotraficantes que fuzilaram 3 militantes do Movimento 26 de Junho em Villa Moreno, os companheiros Jere, Mono y Patom. Mesmo assim tivemos que padecer pelo assassinato de Mercedes “Mecha” Delgado no bairro Ludueña, pelas mãos de quadrilhas da região. Nossa organização não está, nem esteve, isenta do alcance da ação destas quadrilhas mafiosas que há anos oprimem moradores e fuzilam jovens que se envolvem com o crime diante da falta de futuro e trabalho dignos, algo que o Estado, em seus diferentes níveis, deixou de fazer, e em alguns casos foi cúmplice, como se tem notícia recentemente.

Novamente e de maneira lamentável temos que levar a público uma série de ações que tentam ameaçar e debilitar nossa vontade e espírito militante, aquilo que nos impulsiona a querer mudar o mundo e buscar uma sociedade sem opressores nem oprimidos. Há vários anos temos recebido recados destas quadrilhas mafiosas para que deixemos de fazer a construção social que temos realizado nesta localidade, assim como em outras regiões do país. O objetivo é nos amedrontar e nos fazer abandonar os lugares em cada bairro onde temos realizado numerosas atividades comunitárias, projetos de cooperativas de trabalho, hortas, oficinas de diferentes ofícios, escolhinhas libertárias, espaços de mulheres, entre outros. Cabe esclarecer que sofremos esta perseguição política destes setores do poder em grande parte por estarmos organizados de forma independente, com nosso próprio fôlego, desde a base e por fora do Estado. É evidente que o trabalho de formação, inclusão e prática social transformadora incomoda a estes setores do poder, tanto os institucionais quanto os narco-mafiosos. Concluindo, temos que tornar público à sociedade e aos meios de comunicação que há mais de dois anos não apenas temos recebido, sistematicamente, chamadas telefônicas com ameaças de morte, mensagens de texto e mensagens de voz ameaçadoras, como também no domingo de 23 de março – a um dia de nossa organização sair às ruas para protestar contra o terrorismo de estado da ditadura e impunidade de ontem e hoje – a companheira Isis Velazquez sofreu um atentado na porta de sua residência, onde incendiaram completamente sua moto e fizeram uma ligação telefônica para avisarem de que fariam tal coisa e ameaçá-la com mais ações contra a organização. Minutos depois do atentado e da ligação, esta quadrilha mafiosa realizou uma segunda ligação para o companheiro Emílio Crisi para lhe avisar que seria o próximo a receber um futuro atentado.

Nossa federação decidiu ir às ruas por meio da ação direta, única forma que temos os de baixo para conseguir aquilo que é deliberado em assembléias, com a finalidade de buscarmos justiça e solidariedade de classe de outras organizações diante destes acontecimentos. Sabemos que as quadrilhas de narcotraficantes não estão sós, são compostas também pelas instituições policiais e são protegidas por juízes, advogados, fiscais, políticos, empresários e redes de conivência com o Estado.

Não nos amedrontaremos pelas ameaças e pelo atentado, não ficaremos de braços cruzados quando estamos vivendo a inflação, o desemprego, a injustiça social, a judicialização dos protestos sociais… e agora os atentados e a perseguição política por parte das máfias organizadas que tem entre seus inimigos os movimentos sociais autônomos.

Nesse sentido fazemos pública a convocatória de um ato em solidariedade às organizações sociais, políticas, de categorias de trabalhadores e de Direitos Humanos em repúdio ao atentado, a ser realizada na Plaza San Martin (Santa Fe y Dorrego) em frente ao prédio do governo do Estado, terça, 8 de abril, 10h.

Fazemos um chamado à solidariedade e ao apoio para o esclarecimento deste ato de violência social protagonizada por setores do poder que não querem essa sociedade nova que queremos e estamos construindo dia a dia sem opressores nem oprimidos, sem exploradores nem explorados, sem ninguém que mande nem obedeça, definitivamente uma sociedade livre. Arriba lxs que luchan!!!

O que é a FOB? Como diz nossa sigla, é uma Federação de Organizações de moradores desempregados e que lutamos junto com os de baixo, da Base. Buscamos um mundo mais justo onde haja possibilidades para todos e todas. Para isso nos organizamos SEM aqueles que querem centralizar e se aproveitar das lutas NEM chefes, NEM DEPENDÊNCIA de nenhum partido político nem governo algum.

Nossa luta é para alcançar a dignidade humana sem que ninguém seja privilegiado em prejuízo dos demais. Nossa luta não quer pessoas que mandem e pessoas que obedeçam, mas pessoas que participem de igual para igual. Nossa luta é por liberdade!

mar 302014
 

Edição nº 29 – Ano X – Março de 2014

logo soliVivemos um momento emblemático em nosso país, com o aumento das perseguições políticas a lutadores sociais e organizações políticas, inquéritos com acusações absurdas e descabidas e um constante ataque por parte dos grandes meios de comunicação às lutas sociais, destilando seu ódio de classe, suas mentiras, e pintando uma realidade existente apenas em suas cabeças. As manifestações são alvo constante da “inteligência” policial, que xereta, espiona, classifica e identifica manifestantes que eles consideram criminosos perigosos, vândalos, subversivos. As reivindicações dos de baixo são ignoradas pelos governos e tratadas como caso de polícia. Tudo isso em um ano que marca os 50 anos do golpe civil-militar de 1964. Há uma herança deixada por esse período e a natureza criminosa e perversa do modo de dominação capitalista mantém sua vigência.

O aniversário do golpe no atual estado nada democrático de direito

CARTAZ MEMÓRIA 2011Necessitamos contextualizar a conjuntura em que vivemos a partir dos mecanismos e dispositivos legais e ideológicos deixados pela ditadura civil-militar. Mecanismos e dispositivos atualizados pelas práticas dos aparatos repressivos e utilizados pelos governos de turno para neutralizar e reprimir as lutas sociais. O golpe de estado civil-militar de 31 de março de 1964 foi um golpe da classe dominante, responsável pela repressão, pelo sequestro, pela tortura, pela prisão e assassinato não apenas de militantes, mas de todo o povo oprimido. Os povos indígenas e quilombolas também foram alvo da ditadura, que retirou inúmeros direitos sociais e políticos de amplas camadas da população ao passo que disseminou generalizadamente o medo e uma mentalidade conservadora que parece estar sendo reatualizada em nossa época de Estado Democrático de Direito. Se não podemos dizer que estamos às portas de uma ditadura ou mesmo de um estado policial, podemos sim dizer que há uma onda crescente de repressão, criminalização e cerceamento de direitos políticos e sociais. O Estado continua cometendo crimes e não é à toa que, segundo dados da ONU, a taxa de homicídios no Brasil é de 43 mil por ano.

Lei Geral da Copa, Lei Antiterrorismo e a Portaria do Ministério da Defesa de “Garantia da Lei e da Ordem” são exemplos de como o governo dito “progressista” de Dilma/PT vem conduzindo suas políticas e de como vem dando respostas às pautas de reivindicação exigidas nas jornadas de luta de 2013, que voltam à cena com força nesse início de 2014. As manifestações são tratadas como casos de polícia e classificadas entre as “boas” e as “más” manifestações. Mulheres e homens são presos arbitrariamente, espancados, humilhados e expostos pela mídia burguesa. Isso sem falarmos na cotidiana violência que sofrem os homens e mulheres das periferias, que são seqüestrados, assassinados e tratados como animais (como o caso da trabalhadora negra que foi arrastada por uma viatura da PM do Rio de Janeiro). Máscaras são proibidas, casas e sedes públicas são invadidas, espantalhos são criados, bodes expiatórios utilizados para montagens absurdas que claramente visam perseguir as ideologias e organizações políticas combativas. Os movimentos sociais são tratados como “Forças Oponentes” e passíveis de serem combatidos por manobras e táticas militares próprias de um contexto de guerra. Querem acabar com o direito à greve e à livre manifestação durante a Copa do Mundo.

Trata-se de uma conjuntura em que, assim como na ditadura civil-militar, Estado, aparato repressivo e grande mídia operam em conjunto como um elemento de choque do sistema de dominação capitalista, perseguindo e montando factóides contra militantes sociais diuturnamente.

Não começou em 2013, não vai acabar em 2014

1964910_284530675038418_164829884_nAs jornadas de luta de 2013 abriram novas possibilidades em nosso país. Possibilidades de gestação de um novo período de embates, com novas características, contra as forças da ordem na peleia por melhores condições de trabalho e de vida. As experiências de ação direta, de mobilizações massivas e de forte repressão vividas por amplas camadas da população deixaram marcas que podemos perceber no conjunto das lutas do início do ano. A greve dos correios e dos rodoviários em Porto Alegre e as lutas pela água com corte e barricadas de rua na região metropolitana do RS; a greve dos garis e a dos operários do Complexo Petroquímico de Itaboraí, no RJ; as mobilizações de rua contra a Copa do Mundo e outras inúmeras greves que são deflagradas em todo o Brasil demonstram que o ciclo de lutas aberto pelas jornadas de 2013 está longe de se fechar.

Se não vemos a mesma massividade de 2013, salta aos olhos a combatividade destas lutas. Suas características indicam uma maior radicalização e protagonismo das bases, que em vários casos tem atropelado as direções sindicais pelegas e conquistado vitórias. É pelo medo de que essas lutas tenham continuidade e se aprofundem em seu grau de organização e radicalização que os de cima e seus lacaios têm tentando a todo custo intimidar e acabar com a luta dos de baixo. A grande mídia pretende forjar consensos e pavimentar o caminho para uma ferrenha fuzilaria repressiva contra os lutadores sociais.

No Rio Grande do Sul há uma intensa campanha contra alguns lutadores sociais do Bloco de Luta pelo Transporte Público e contra professores combativos do magistério estadual. Inquéritos policiais claramente políticos e ideológicos vem sendo construídos como forma de intimidação. Até “constituição de milícia privada” aparece nas acusações. Em Santa Catarina o foco da repressão policial com prisões e violações de direitos humanos é realizado para manter o modelo de exploração capitalista no transporte coletivo. Além das prisões, processos criminais são encaminhados para tentar punir a população organizada que luta pela tarifa zero e por uma empresa pública de transporte coletivo. Em São Paulo vemos o emprego das tropas “ninja” e de efetivos cada vez maiores de policiais – entre tropa ninja, de choque, força tática, cavalaria, etc. – com o claro intuito de intimidar e restringir o direito de se manifestar dos/das que lutam; e no Rio de Janeiro, foram os garis que tiveram de enfrentar uma forte campanha midiática disposta a deslegitimar sua greve histórica, uma prefeitura conservadora obstinada a não atender suas reivindicações e uma polícia militar que agiu como os antigos “capitães do mato”; a mesma polícia que assassina diariamente centenas de Claúdias e de Amarildos.

É na esteira desta ampla campanha, com vistas a forjar um consenso e impor uma ordem marcada pela pasmaceira de um povo obediente frente aos desmandos e abusos dos de cima, de garantir uma “esquerda” domesticada ao calendário eleitoral, de transformar os atos em meras manifestações cívicas com propósitos conservadores, que temos as dezenas de casos de repressão, abusos e perseguições político-ideológicas em todo o país. Trata-se de uma intensa guerra psicológica que estes meios vêm desatando contra a esquerda que resiste ao pacto social costurado pelo governo de turno em aliança com as classes dominantes e as burocracias de diversos movimentos sociais que cada dia mais vão perdendo o seu vigor para se assimilarem a meras ONGs.

A morte do cinegrafista Santiago Andrade em um trágico acidente no Rio de Janeiro é o maior exemplo de como essa guerra psicológica vem sendo travada em escala nacional. Com isso, tentam justificar a aprovação da famigerada lei antiterrorista com a qual pretendem impedir que os setores populares e a esquerda superem a trágica dispersão e desorganização que os caracterizaram nos últimos anos. Quando o real motivo é o medo da classe dominante diante de um novo ciclo de lutas marcado por uma outra cultura política, que não esteja enraizada em ilusões institucionais, mas sim no protagonismo popular, na ação direta e trabalho de base de todos os dias.

É em meio a esse clima de intensa guerra psicológica que vemos os atuais governos “progressistas” ensaiando uma dobradinha com os oligopólios da imprensa, os mesmos que de forma reiterada acusam de sabotá-los e criar um ambiente golpista. Enquanto a grande imprensa denuncia e planta factóides, diversos governos estaduais, com a aprovação do governo Dilma, não vacilam em seguir o bonde e autorizar mandados de busca e apreensão, indiciamentos farsantes, infiltrações, intimidações a crianças, tropas ninja e tudo mais que seja necessário para garantir seu pacto social neodesenvolvimentista e a sua comemoração a partir dos mega-eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Revelam, assim, o seu real caráter político e de classe.

Não temos dúvidas com relação ao nosso papel enquanto esquerda libertária de intenção revolucionária. Cabe a nós defender que as lutas em curso e a organização dos setores que compõem as classes oprimidas ganhem a profundidade e a intensidade necessárias para impedirmos o avanço desse estado de repressão e criminalização sobre as lutas sociais. A unidade dos de baixo não só é desejável como extremamente necessária na conjuntura em que estamos vivendo e as ilusões alimentadas por uma esquerda eleitoralista precisam ser questionadas, pois nossas urgências não caberão nas urnas dos de cima! Se não há direitos para o povo, não vai ter copa para os ricos.

Nossa memória aos de ontem será nossa luta com os de hoje! Ditadura nunca mais!

Barrar a criminalização do protesto e dos lutadores sociais com organização e pela força das ruas!

Rodear de Solidariedade à todos(as) os(as) que lutam!

Coordenação Anarquista Brasileira – CAB

 

Imprima o arquivo e ajude a difundir a Imprensa Anarquista: Socialismo Libertário – Edição 29 – Março de 2014

mar 282014
 

Elementos de conjuntura

Frente aos episódios vividos nas ruas do país em meados de 2013, cabe apontar que houve sensíveis mudanças na conjuntura política brasileira. Parece que estamos transitando de uma etapa em que o consenso conservador dá as primeiras mostras de seu esgotamento, abrindo um novo ciclo de luta de classes no país. Para análise desse contexto, nós, da Coordenação Anarquista Brasileira, apresentamos alguns elementos.

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Os limites do neodesenvolvimentismo petista

Para tratar do atual modelo de gestão do capitalismo no Brasil, precisamos apresentar com maior precisão a forma econômica que o capitalismo assumiu no país nesta última etapa. Acreditamos ser um equívoco colocar esta última etapa, os dez anos de petismo, na vala comum do neoliberalismo, pois, se por um lado a política econômica não rompe estruturalmente com os aspectos privatizantes nas áreas sociais, e mesmo com a precarização dos serviços públicos, na perspectiva tanto dos que trabalham para o Estado, como para aqueles que usufruem dos serviços, vemos, por outro lado, que a participação do Estado na economia é decisiva.

De acordo com o próprio governo, suas prioridades no campo econômico são:

“a.) Praticar uma macroeconomia e um financiamento para o desenvolvimento, garantindo os objetivos de estabilidade macroeconômica e de crescimento com distribuição de renda;

b.) Dar curso e velocidade às três frentes de expansão que se encontram atuantes na economia brasileira: Investimentos em produção e consumo de massa; investimento em infraestrutura econômica e social; e investimento intensivo em recursos naturais. (…)” (PPA, 2013, grifos nossos)

Como podemos notar nas palavras do próprio petismo, hoje no governo, os pilares da economia se encontram no consumo de massa permitido pela expansão do crédito e por programas sociais de distribuição de renda, no investimento em programas como o PAC e os mega-eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), bem como na construção civil (programa “Minha Casa, Minha Vida”) e na exploração intensiva de recursos como o petróleo. Tais elementos denotam que, mesmo as políticas sociais colocadas como carros-chefes – “Bolsa Família”, “Brasil sem Miséria” e “Minha Casa, Minha Vida” – se circunscrevem em uma agenda desenvolvimentista, que visa aquecer o mercado consumidor e o mercado imobiliário e, assim, pouco se referem ao combate à pobreza e ao desenvolvimento de um “estado de bem-estar social”, que é o que se espera do reformismo estrito senso.

O governo também aponta outra prioridade:

“Diante da redução dos investimentos privados e da concessão de crédito pelo sistema bancário privado, fruto da crise internacional iniciada em 2008, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal cumpriram importante papel anticíclico, evitando uma queda maior da atividade econômica.” (PPA, 2013)

Os gastos com aquilo que o governo chama de “medidas anticíclicas” aumentaram para 53,5% na Caixa, no BNDES e no Banco do Brasil de 2011 para 2012. Somente em 2011, o BNDES emprestou para a iniciativa privada R$139 bilhões.

No que tange à distribuição de renda, existem duas situações a serem destacadas. Não existe uma diminuição real na desigualdade de renda, pois o topo da pirâmide social continua intacto. O que existe, de fato, são políticas de transferência de renda, como o “Bolsa Família” – somadas, todas as políticas sociais correspondem a 19,6% do PIB –, que tem um efeito positivo no que tange à inclusão no mercado de consumo de uma massa que estava totalmente excluída. Todavia, a dita “nova classe média” não é mais que uma invenção petista, pois essas pessoas têm rendimentos que sequer garantem acesso aos direitos fundamentais. A maior parte da população brasileira continua vivendo com menos de um salário mínimo. Trabalhadores com 15 anos ou mais de idade que ganham menos de um salário mínimo somam mais de 26 milhões e 43% das famílias brasileiras apresentam uma renda per capita inferior à um salário mínimo.

Ao mesmo tempo, 124 pessoas concentram 12% do PIB, apenas 6% dos brasileiros detêm meios de produção próprios (IPEA) e 10% dos mais ricos ainda detêm 75,4% da riqueza do Brasil (dado de 2008, que não variou desde 2004); ou ainda, 1% dos proprietários de terra brasileiros detém 45% da terra, 90% dos proprietários detêm 20% (INCRA). Somado a isso, ano após ano, bancos batem recordes de lucro, como atestam os resultados do Banco Itaú no primeiro semestre de 2013. O Itaú teve, nesse período, seu segundo maior lucro da história (o terceiro maior de um banco, ficando atrás somente de sua marca em 2011 e do lucro recorde do Banco do Brasil de 10,03 bilhões) obtendo a marca de 7.055 bilhões, que é um montante maior que a economia de 33 países. Os lucros do Bradesco são maiores que a economia de 30 países e os do Santander maiores que a economia de 21 países.

Mas para manter a aparência de “país rico”, o governo e a mídia disseminam o conceito de “classe média”, como se houvesse, na prática, esse segmento claramente diferenciado, a partir da recente inserção de setores populares no consumo. Para o governo, essa “classe média” abrange a população com renda per capita de R$ 291,00 até R$ 1.019,00. Ou seja, mais da metade da população brasileira pertenceria, assim, a essa “classe média”. Esta renda média está muito abaixo daquilo que o DIEESE aponta como necessário para se ter acesso aos direitos fundamentais. A instituição estipula que o salário mínimo brasileiro deveria ser de R$ 2.621,70 (2013). Na prática, o que isso significa? O perfil de distribuição de renda do país sofreu poucas alterações em sua estrutura, mantendo as enormes desigualdades de rendimentos entre os mais ricos e o restante da sociedade, com transferências de renda concentradas entre as classes populares. Percebe-se que, na realidade, o que acontece é que o governo redistribui a pobreza. Segundo o IPEA, a pobreza reduziu no Brasil de 32,4% para 22,6%, incluindo essa parcela da população na classe média. Entretanto, os mais ricos continuam da mesma forma, acumulando. O que se nota é que, mesmo com a manutenção da riqueza das classes dominantes, houve, entre as classes oprimidas, alguma redistribuição.

No que tange ao ganho real nos salários, este é muito pequeno no atual cenário. Apesar de que 84,5% das categorias que são monitoradas pelo DIEESE tiveram aumentos acima do INPC, apenas 0,6% receberam aumentos acima de 5%. A maior fatia recebeu entre 0,01% e 1%, somando 34,8% destes 84,5%. Nesta mesma pesquisa, constata-se que 64% tiveram um aumento da ordem de 0,01% a 2% acima do INPC. Em 2012 houve a maior taxa de aumentos acima de 5% do INPC. Isso atesta que o aumento no consumo se deu com a ampliação do crédito e corrobora a afirmação de que não há uma distribuição de renda significativa no país.

O que se percebe no contexto político-social pelo qual o capitalismo no Brasil está passando é que as desigualdades econômicas vêm sendo mantidas e as diferenças sociais estão sendo timidamente modificadas, no sentido de diminuir a população miserável e inseri-la nessa dita “classe média”, aumentando seu poder de compra e abrindo crédito a ela. Isso se reverte, nos estratos sociais mais baixos, em um endividamento diretamente proporcional ao incentivo para o consumo. Segundo Roberto Luis Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, 63% da população brasileira possui algum tipo de dívida e 20% de contas atrasadas; 76% destas pessoas têm dívidas no cartão de crédito e o juro médio desse tipo de conta, no Brasil, atualmente se encontra no patamar dos 130%.

O agronegócio e a agroindústria, que contam com algumas das empresas “campeãs nacionais”, são os grandes responsáveis pelo superávit primário e também têm suas fragilidades. Como a cotação das commodities se dá nos mercados internacionais, a economia nesta área é extremamente dependente do capital internacional. Por isso, depender desse setor para garantir a balança comercial e a segurança econômica do país é um sério risco.

Ao mesmo tempo que o Partido dos Trabalhadores não manteve o “pacto neoliberal” e aportou um modelo de gestão mais afinado ao neodesenvolvimentismo – com gastos mais robustos do Estado dentro de uma perspectiva mais intervencionista –, as alterações realizadas pelo seu modelo de governo não parecem suficientes para promover uma alteração na estrutura econômica, nem mesmo no que tange à distribuição de riqueza, algo esperado de um partido do campo do trabalhismo. Em relação ao desenvolvimento capitalista, o PT atingiu alguns índices que permitem certa estabilidade e crescimento, como os 4,6% de desemprego, que permitem certa fluidez à economia; afinal, o consumo de massas é um de seus carros-chefes. Todavia, a não distribuição real de renda, ou seja, a socialização da miséria, gera índices de endividamento preocupantes, que prometem desacelerar o consumo de massas e o mercado imobiliário, com um grande risco desse endividamento se tornar inadimplência. As grandes obras e os megaeventos têm prazo de validade, e, quando finalizados, prometem desacelerar ainda mais a economia. O agronegócio, como apontado, está sujeito ao mercado internacional e, por isso, sensível às oscilações econômicas externas. Resta saber, também, até que ponto os bancos públicos suportarão manter o crédito no mercado, sem que o Estado se endivide ou tenha suas contas pressionadas, em especial no que tange aos programas sociais.

Como vemos, temos um modelo econômico que está distante de uma perspectiva transformadora; ele não pode ser assim caracterizado sequer em uma perspectiva reformista. Mesmo no que diz respeito ao equilíbrio capitalista, ele parece estar sustentado em “bases” instáveis, sujeitas a desequilíbrios.

Direitos sociais não estão na agenda do neodesenvolvimentismo

No momento que nos encontramos, após os dez anos de PT no poder do Estado, podem-se apontar algumas tendências. Como sublinhamos, não existem esboços de mudanças mais radicais e a política tem pequenas oscilações. No campo social, sem romper compromissos com o capital financeiro, é muito difícil alterar radicalmente o quadro, pois 40% do orçamento do Estado destina-se à amortização da dívida pública. Era um compromisso histórico da esquerda romper com a dívida pública, ou seja, dar o calote nos agiotas do poder público para poder ter recursos mais robustos para as políticas sociais, projeto que o petismo abandonou há muito, pois seus compromissos atuais são com as classes dominantes.

As já citadas medidas anticíclicas (especialmente a disponibilização de crédito) têm um crescimento muito mais vultuoso que o dos gastos em áreas sociais. Há mais investimento em crédito bancário do que nas áreas sociais. Foram destinados, entre 2011 e 2012, 55% mais de recursos a esse setor, sendo que, somente em 2011, o BNDES emprestou para a iniciativa privada R$ 139 bilhões. Enquanto isso, os orçamentos destinados para a Educação passaram para R$ 38 bilhões (14,4% maior em relação à 2012) e o “Brasil Sem Miséria” tem R$ 29,9 bilhões (16,3% maior em relação à 2012). No mesmo período (de 2011 para 2012) o salário mínimo passou de R$ 545,00 para R$ 622,00, um crescimento de cerca de 14%. Como vemos, o governo faz uma opção de apoio à burguesia, ao apoiar seus megaempreendimentos em momento de crise, em vez de investir recursos em áreas de interesse social.

Tais medidas do governo conseguem certo êxito, pois mantêm a economia equilibrada e um crescimento razoável, com as taxas de desemprego baixas, dentro da mínima histórica (4,6%, em 2013, segundo o Jornal Metro, Curitiba, 20 de Dezembro), e com certa capacidade de consumo das massas, que possibilita crescimento e relativo equilíbrio econômico.

Esses aspectos acabam por apontar algo que as ruas já sinalizavam: as grandes revoltas não se referem ao prenúncio de uma crise econômica, pois no momento não existem sinais aparentes dessa crise, mas à insatisfação da população com os serviços e a precariedade das condições de trabalho. Esse quadro é claro e se refere, em geral, aos grandes centros, onde a população goza de algumas benesses conquistadas no governo PT (crédito fácil que dá poder de compra e relativa ascensão social para segmentos da classe trabalhadora extremamente pauperizados), mas que, porém, não consegue ver melhoras reais em sua qualidade de vida, pois não vê as melhorias tanto prometidas pelo PT.

Segundo pesquisa de 2011, cerca de 70% da população se encontra insatisfeita com os serviços prestados pelo SUS. Esse número se refere àqueles que, frequentemente, buscam o serviço. A principal reclamação é de falta de médicos, seguida da demora em agendar consulta ou exame na rede pública (IPEA), que podem chegar, segundo algumas fontes, a 9 meses. Segundo outra pesquisa, cerca de 60% da população usa somente o SUS, enquanto outros 30% combinam o uso do SUS com a saúde privada. Na prática, cerca de 90% da população depende dos serviços do SUS. Ele não obtém aumento real em sua suplementação desde 1994, pois, a inflação no setor de saúde acumulada na última década, de 83,3%, acabou por absorver os 32% de aumento em subsídios no setor. Vemos o atual governo romper somente na retórica com a antiga política privatizante, impondo-a por meio de medidas mascaradas, como no caso das empresas públicas de direito privado (como a EBSERH), que abrem espaço para as privatizações (hospitais de porta dupla) e promovem a mercantilização da saúde (não só no sentido comercial, mas também de submetê-la à lógica da administração empresarial em detrimento do bem-estar. Em nível estadual temos as suas equivalentes, as Organizações Sociais (OSs). Somente apontando esses dados preliminares, sem nos determos à fundo nas estatísticas relacionadas à saúde pública brasileira, é notável que a sua situação é catastrófica.

Quando tocamos a situação das universidades, temos uma situação ainda mais crítica no que tange à administração do serviço por parte do poder público. Apenas 11% da população entre 25 e 64 anos de idade atingiu esse patamar educacional, quando o recomendável para nações desenvolvidas é, pelo menos, 31%. Atualmente, ao menos 74% dos estudantes do ensino superior têm de recorrer ao ensino privado, pois as instituições de ensino superior privado correspondem à maior parte deste serviço no Brasil. São 2.112 instituições privadas para 304 públicas. Somente 62% das pessoas com ensino superior e 35% das pessoas com ensino médio completo são classificadas como plenamente alfabetizadas. Segundo pesquisa do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa, os níveis de alfabetização e alfabetização funcional melhoram seu desempenho de acordo com a renda. Percebe-se que o produtivismo imposto à educação brasileira por órgãos internacionais nos anos de neoliberalismo ferrenho, combinado com a falta de atenção naquilo que tange às políticas de bem-estar social (em que renda é somente um elemento) e com uma universalização que não representou aumento suficiente em verbas (por consequência em ganho estrutural e pessoal), gerou uma estrutura sobrecarregada (salas lotadas) com número pequeno de professores, acabando por se converter em uma educação massificada de péssima qualidade. Nosso país não somente tem uma educação de péssima qualidade, como, por conta da expansão via universidades privadas, é incapaz de promover o desenvolvimento tecnológico, pois as privadas não investem em pesquisa e possuem um frágil sistema de produção de conhecimento. O Brasil é responsável por meros 2,7% da produção científica no mundo, o que é pouco para uma das maiores economias mundiais. Não é à toa que somente quatro universidades brasileiras estão entre as 100 mais bem avaliadas dos BRICS. Nessa área, a privatização se estende a todos os níveis, do básico ao superior, seja por meio da privatização de receitas, da estrutura pública ou pela liberalização que transforma um direito em mercadoria.

Com essa expansão da educação que visa atingir “metas” de organismos internacionais como FMI e Banco Mundial, podemos acompanhar a mudança do perfil dos universitários. Cada vez mais trabalhadores flexíveis têm ingressado na universidade. Esses trabalhadores acreditavam que teriam condições de ascender a uma condição melhor de vida com o diploma universitário. No entanto, pela qualidade do ensino oferecido, diante de um país que não investe na produção de conhecimento e que tem uma economia frágil (baseada na construção civil, capital imobiliário, agronegócio e varejo), ter nível universitário não é sinônimo de condição privilegiada, pois restam poucos espaços de inserção profissional.

Não podemos deixar de abordar a problemática do transporte, o estopim das chamadas “Jornadas de Junho” de 2013. O transporte, serviço fundamental para o acesso tanto ao trabalho, como à saúde e à educação, bem como o direito à cidade, tem se convertido em um dos maiores gastos das famílias brasileiras, já comprometendo 15% da renda familiar em 2012 (IPEA), isto sem contar os aumentos que geraram os levantes no ano passado. Tal serviço, que ainda não é reconhecido como direito social, está longe de ter seu acesso sequer facilitado. Pelo contrário: estima-se que 37 milhões de brasileiros deixam de usar o transporte público por não poder pagá-lo. O transporte público vem, há anos, sendo administrado por máfias que, além de fazerem negócio privado daquilo que é direito fundamental, embutindo nas tarifas seu lucro, administram o transporte com práticas de superfaturamento de custos que fazem com que ele se torne ainda mais caro.

Na esteira da política neodesenvolvimentista, fica evidente que o direito social tem espaço somente na medida em que pode ser comprado. Assim, os brasileiros continuam a carecer de um sistema de proteção social em áreas fundamentais como saúde, educação e transporte, condizente com uma política social-reformista. Tomamos esses elementos como referência pois, segundo pesquisa do IBOPE, foram eles os mais citados por manifestantes como motivos de seus protestos.

O que fica claro é que o PT não traz grandes mudanças às áreas sociais e que segue, em parte, a agenda neoliberal, privatizando, por vezes usando outras modalidades. A pequena mas sensível mudança se dá na colocação robusta de recursos públicos na iniciativa privada. Temos como dois grandes exemplos o PROUNI, que compra vagas em universidades particulares, e o “Minha Casa, Minha Vida”, que fornece moradias populares com crédito público, mas subsidiando grandes empreiteiras.

A traição dos “de baixo” tem seu preço

O PT tem sua origem no acúmulo de forças das classes oprimidas que, ao longo dos anos 80, no contexto da reabertura política, somaram esforços em várias frentes, dando origem a algumas das entidades de classe mais poderosas. No movimento sindical temos a formação da CUT, no movimento agrário o MST, no movimento estudantil a reorganização da UNE e no movimento comunitário a força de vários movimentos populares, em especial aqueles impulsionados pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Essa ebulição de forças sociais acabou tendo como saldo político a formação de um grande partido, composto por vários setores do trabalhismo, o PT. Tal partido sintetizava de alguma maneira os anseios das classes oprimidas e acenava com a esperança de que elas poderiam chegar ao poder e realizar as mudanças desejadas pela via da democracia burguesa; perspectiva que permite colocar o partido no hall do reformismo clássico. Nesse sentido, podemos dizer que o PT é um partido que tem origem no seio do povo, a despeito de seu projeto de ascensão ao poder do Estado burguês, e que foi pela força dos de baixo que ele chegou ao poder.

É por essas características do processo que levaram o PT ao poder que ele tem condições de selar o “pacto” de classes, pois, sendo proveniente dos movimentos populares, constitui um interlocutor que tem muito mais força no interior desses movimentos. Findado um projeto eleitoral, com as eleições presidenciais de 2002, chega o momento de desarticular os aparelhos de organização da classe, que há muito vinham servindo ao eleitoralismo; as lutas desses movimentos já apontavam, mais significativamente, para a perspectiva de desgaste do então principal adversário, o PSDB. Com a chegada do PT ao poder, era o momento de desarticular os movimentos naquilo que traziam de perigo: sua capacidade combativa de mobilização. Isso foi feito por meio da cooptação em seu sentido mais direto, isto é, oferecendo cargos, injetando dinheiro e tornando os movimentos meros gestores de recursos. Outra medida foi a concessão de esparsas concessões no campo dos direitos sociais, com os projetos de distribuição de renda e alguns projetos que atendem a população do campo sendo os carros-chefes, valendo-se, assim, da condição extremamente subalternizada da população para lhes distribuir migalhas. Esses dois elementos, somados à burocratização interna dos movimentos, os quais passam a ser subordinados pela correia de transmissão que havia sido criada entre PT e movimentos sociais, foram fundamentais para promover a “paz social”, isto é, amaciar, servir de pelego para os conflitos de classe, fazendo o que a direita, que priorizou a via da repressão, não pôde realizar em seu período de governo.

A cooptação dos movimentos e o atendimento a setores mais fragilizados da população possuem resultados ideológicos importantes. Difunde-se a ideia de que o governo realmente promove a justiça social, gradualmente e de forma responsável, traduzindo-se na ideologia do “melhorismo”, comparando-se a situação atual do país com o velhos tempos de PSDB. Faz-se, assim, com que as classes oprimidas abram mão de um projeto de classe imediato para adotar a crença da melhoria lenta e gradual.

Como vimos, o PT não faz nada mais que oferecer algumas políticas de distribuição de renda, políticas sociais que atualmente representam meros 16% do PIB, enquanto 32,5% se esvaem na dívida pública, não deixando dúvidas sobre o caráter de classe desse governo. Contudo, há um cenário menos pior do que no período anterior, que resulta num respaldo de base eleitoral e, assim, na permanência do PT no poder, assim como do “pacto de classes” por ele orquestrado. Vemos esse duplo sentido no assistencialismo do Estado: a manutenção do aparelho do Estado e o pacto de classes.

A despeito das manifestações, ainda é notório o forte apoio ao PT e não há sinais de crise política, tanto que o próprio PT se valeu das mobilizações para implementar parte de sua agenda, que estava engavetada na Câmara. Dilma segue com mais de 40% nas pesquisas eleitorais. Esse apoio deriva dessa política que, em um primeiro momento, cooptou os movimentos sociais, posteriormente os estrangulando com a burocracia e, em seguida, concedendo aos segmentos mais explorados algumas melhorias, em vários casos os inserindo no consumo. Como vimos, essa inserção no consumo não possui respaldo em direitos.

Tais ações do governo PT colocaram o movimento social em um longo período de refluxo. Aparecem, aqui e ali, esboços de resistência, mas é difícil a articulação da luta de massas com os instrumentos que foram constituídos historicamente pelas classes oprimidas no país, pois eles têm sido desmobilizados e vêm perdendo completamente sua autonomia e independência com a cooptação e a burocratização.

Somada à perda de espaço dos movimentos populares na vida dos brasileiros, temos a ampliação do espaço da mídia de massas, que passa a ter voz quase uníssona e a ser praticamente a única grande e influente formadora de opinião pública. Atualmente, segundo a instituição Meta Pesquisas, 94,2% da população assiste TV, sendo que 77,8% somente TV aberta; 70,6% afirmam ter preferência pela Rede Globo. Outros setores que se fortalecem e ganham cada vez mais espaço, em especial nas periferias das grandes cidades, são as igrejas neopentecostais e sua “teologia da prosperidade”, afirmando uma consciência que busca integrar os pobres à sociedade de classes por meio do sonho de ascensão social.

Diante desse panorama de estabilidade ideológica para o capitalismo e de relativo consenso conservador, encabeçado pelo PT, o qual deslanchava bem com seu projeto neodesenvolvimentista, os protestos de 2013 trouxeram novidades para às ruas. Nem mesmo as esquerdas imaginaram que as manifestações do MPL poderiam terminar abrindo as comportas da revolta acumulada por anos de demandas reprimidas.

Um novo sujeito sai às ruas, jovem, relativamente instruído, trabalhador precarizado, típico desta nova era do capital: o trabalhador flexível, parte da dita “classe média”. Ele não fez parte da formação do ciclo de lutas passado, que culminou na chegada do PT à direção do Estado; também não tem uma vivência política rica, justamente por ser de uma época em que os principais referenciais de organização popular e política foram desarticulados pela cooptação/burocratização. Esse sujeito vem para as ruas reclamar por anos de demandas reprimidas. Ele está insatisfeito com sua situação, mas, ao mesmo tempo, parece não estar devidamente municiado para o embate.

Assim, o que vimos nessas jornadas foi a tomada das ruas por uma enxurrada de reivindicações, que começaram com o transporte, impulsionadas pelas lutas contra os aumentos nas tarifas, mas que se tornaram uma luta reivindicatória por direitos sociais, bem como uma crítica ao atual status político. A despeito das críticas ocorridas, as esparsas pesquisas realizadas demonstram que as manifestações tiveram um impacto tanto naqueles que saíram às ruas, quanto naqueles que não participam ativamente das lutas, mas conformam a opinião pública. Em geral, houve apoio de setores amplos da população aos protestos e suas reivindicações. De acordo com as respostas da pesquisa do IBOPE realizada em sete estados e Brasília durante as manifestações, 53,7% da população saiu às ruas em decorrência de sua insatisfação com o transporte público e 49% contra a corrupção. Como vimos, a pauta do transporte teve uma ligeira maior adesão, o que demonstra que, mesmo com a disputa “vertical” das pautas das ruas, levada a cabo pela mídia, as mobilizações continuaram no sentido traçado pelos movimentos sociais que a encamparam.

Vimos claramente a disputa em torno dos temas das manifestações, com a mídia buscando oportunizar e colocando na pauta a luta contra o PT (e não contra a corrupção). Porém, ainda assim, as pautas construídas por baixo pelas inúmeras organizações que conformaram a luta pelo transporte acabaram saindo “vitoriosas”. Temos ainda um outro dado interessante para estabelecer esta comparação: 40,5% dos manifestantes afirmaram ter saído às ruas pela redução das tarifas (pauta que se refere à luta pelo acesso ao transporte); todavia, apenas 11,9% afirmaram estar nas ruas contra a PEC 37, pauta agitada pelos setores “anticorrupção”, inclusive sugerida pelo nada imparcial Arnaldo Jabor. Essa comparação sugere que, apesar da mídia burguesa deter em grande medida os meios de comunicação e ter o poder de pautar as massas, o trabalho de base sistemático pode potencializar uma disputa, pois tem como pano de fundo questões concretas de sofrimento diário dos oprimidos. Afinal, a pauta que podemos chamar de “tática”, ou seja, mais concreta, em torno do transporte, demonstra muito mais enraizamento do que a “pauta do Jabor”.

Felizmente, a internet em geral, e as redes sociais em particular, vêm se constituindo como ferramentas importantes para a mobilização e contrainformação. Elas municiaram os movimentos e organizações populares de instrumentos que, se não têm a mesma força da televisão e da mídia de massas, fazem um contraponto razoável e importante. Isso não significa que se deve renunciar ao trabalho de base da militância “cara a cara”, que é o que realmente forja novas forças para os movimentos, mas que esses espaços de interação (da internet e das redes sociais) não podem ser negligenciados.

A ação direta volta à cena para contrapor o burocratismo e institucionalismo imposto aos movimentos sociais pelo PT, ou seja, a população volta a agir política e diretamente, traçando meios para atingir um objetivo classista. A prova da eficiência dessa forma de ação foi a redução da tarifas em mais de 100 cidades. Junto disso ainda reaparece a violência como forma de ação política que, em algumas localidades, foi para além dos Black Blocs, sendo aceita e às vezes praticada por populares que passaram a se reconhecer nas manifestações e, assim, fazer sua defesa, isso quando, vale ressaltar, as forças da repressão atacavam.

Todavia, a falta de enraizamento da esquerda nas classes oprimidas é um problema a ser apontado, incluindo a falta de movimentos sociais orgânicos, autônomos, independentes e combativos. Isso permite que as massas estejam mais suscetíveis àqueles que realizam a disputa política representando os interesses dominantes, como no caso da imprensa capitalista, que vem buscando influenciar as manifestações. Os grandes meios de comunicação têm realizado tentativas de estabelecer uma agenda própria, com aspirações de direita, visando desestabilizar o PT no plano eleitoral.

Cabe apontar que é necessário sermos cautelosos com toda a massa que saiu às ruas portando os símbolos nacionais. Isso não se traduz, necessariamente, em uma onda de fascismo, ou uma nova revoada dos “galinhas verdes”, mas, em geral, representa a desorientação de parte dessa juventude trabalhadora que vai às ruas, a qual acaba por se tornar suscetível às disputas verticais que a mídia estabelece, justamente por lhes faltar referências de organizações de esquerda e mesmo de movimentos sociais. Apontamos, por isso, a necessidade da paciência do trabalho de base e da formação de opinião.

Em relação ao nosso campo, destaca-se a reinserção do anarquismo na cena pública. Ele esteve em voga e é, de certa maneira, responsabilizado pelas jornadas de 2013, para o “mal” e para o “bem”, pois foram os anarquistas os criminalizados, mas também aqueles que gozaram de maior prestígio e assumiram posições de destaque na “primavera brasileira”.

Esse destaque ocorre, em grande medida, pela posição que assumem os anarquistas na organização da luta pelo transporte. Afinal, desde os primórdios do Movimento Passe Livre, nos idos de 2005, os anarquistas estiveram presentes, em suas mais diversas expressões. Tal dado é importante e deve ser abordado com atenção. O anarquismo que eclode à cena pública não necessariamente é o anarquismo organizado; todavia, a popularização do anarquismo, e, mais ainda, uma popularização positiva, isto é, como um referencial de luta, abre um grande campo para nossa maior inserção em todos os níveis. Não podemos negligenciar que parte da popularidade do anarquismo reflete a insatisfação com a democracia burguesa, isto é, a desesperança da população com a possibilidade de construção de uma alternativa pelo Estado, pois os jovens trabalhadores que estão nas ruas, ao contrário da geração passada, não só não têm afeto com o petismo, mas também o rejeitam. E fazem isso tanto pela sua situação de classe, quanto por não verem no partido mais do que um gestor do Estado, além de todos os casos de corrupção e políticas precarizantes implementadas, que terminaram por colocar o partido no lugar comum da democracia burguesa.

Como podemos ver, há potenciais enormes para a retomada de movimentos classistas, autônomos e independentes, que tenham como método de atuação a ação direta, e que possam, por meio de sua combatividade, realizar importantes conquistas. Para o anarquismo, em especial, abre-se um espaço na arena pública que, podemos dizer, há décadas não existia. Entendemos, ao mesmo tempo, ser necessário analisar a amplitude desses movimentos, que se referem a um sujeito específico, o trabalhador flexível, com alta escolarização e urbano, que já sente na pele os limites e contradições do modelo de gestão do PT.

Temos que apontar que, não existindo uma organização permanente de luta, e esse é o fator principal, esse será um ciclo com limites muito definidos. Temos de trazer uma perspectiva de luta de rua combativa e inscrever no imaginário da população em geral a possibilidade de mudança por suas próprias mãos, o que abre caminho para voos mais altos em uma conjuntura futura, na qual podemos enxergar, devido aos dados já apontados, um esgotamento a nível mais amplo do projeto econômico e político petista.

Coordenação Anarquista Brasileira

Março, 2014

fev 172014
 

 

SOBRE A RECENTE TENTATIVA DE CRIMINALIZAÇÃO DAS LUTAS

 

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Publicado em 13/02/2014, no site da FARJ

Desde as lutas iniciadas em junho de 2013 assistimos uma tentativa massiva da mídia burguesa em domesticar, sufocar ou capturar as pautas da luta popular. Os protesto de junho e dos meses seguintes, que tinham como principal foco, exigir pela força das ruas, direitos sociais (redução da passagem, saúde, melhoria da educação etc.) tentaram ser apropriados por seus adversários reacionários.

Outra questão é que a burguesia, o governo federal (PT e aliados) e os setores médios conservadores da sociedade nunca aceitaram as táticas de luta (ataque a propriedade privada e resistência a violência policial) e as mobilizações de massa (favela, estudantes, sindicatos etc.) que foram forjadas pelas manifestações. Com receio de uma “crise” em plena Copa do Mundo atrapalharem os negócios do capital e as eleições, o Estado brasileiro se apressou a utilizar instrumentos judiciais que permitissem a rápida repressão de manifestantes, organizações políticas e entidades de trabalhadores.

A luta contra o aumento da tarifa

A lembrança da massificação dos atos de junho e julho pelas lutas contra o aumento da passagem retornam como um pesadelo na cabeça dos governos federais e estaduais. A estratégia agora utilizada é tentar sufocar a luta contra o aumento da tarifa antes de uma possível ampliação dos atos. Apenas oito meses depois da redução da tarifa pela força das ruas, o prefeito do rio, Eduardo Paes autorizou criminosamente o aumento da tarifa, contrariando (de se esperar) os laudos técnicos do Tribunal de Contas do Município, que recomendaram a diminuição da tarifa para R$2,50. O Movimento Passe Livre do Rio de Janeiro (MPL-RJ) junto a outros coletivos e organizações políticas, responderam ao aumento com uma seqüência de atos de rua e a resposta das elites políticas foi a mesma de sempre: repressão.

O ato do dia 06 de fevereiro e suas duas mortes

O ato do dia 6 de fevereiro ficou marcado pela forte repressão da PM, que atirou bombas pra todo lado, inclusive dentro da Central do Brasil, onde havia muitas trabalhadoras e trabalhadores e até crianças circulando. A consequência desse descalabro da PM foi o terror nas ruas do Rio de Janeiro. O resultado  foi que ocorreram duas mortes: o cinegrafista da TV Bandeirantes, atingido acidentalmente por um rojão, e um camelô, atropelado por um ônibus, enquanto fugia das bombas da PM. Lamentamos profundamente a morte desses dois trabalhadores e nos solidarizamos com suas famílias, mas denunciamos, assim como outros movimentos sociais e organizações que ambas as mortes foram frutos da criminosa atuação da PM e da política de transportes do Governo do Rio de Janeiro, que insiste em manter o aumento da tarifa para R$3,00 e espanca manifestantes abertamente. É a situação de barbárie instrumentalizada pelo alto custo de vida, o domínio e extermínio militar dos pobres (UPP’s), o racismo, a desigualdade generalizada que levam os/as trabalhadores/as ao limite. Ainda assim, fazemos questão de ressaltar que nada que os manifestantes façam, mesmo uma atitude desastrada, pode se equiparar, a violência cotidiana do sistema capitalista, do Estado e sua dominação. Tampouco podemos ignorar o fato, de que a resistência popular vista nos atos (tática Black Bloc) surgiu exatamente como uma resposta a violência policial e a violência cotidiana do sistema capitalista.

A mídia, obviamente, sempre alinhada com os anseios dominantes tratou de dar ênfase apenas a uma dessas mortes (do cinegrafista Santiago) e antes mesmo da apuração dos fatos, avaliou, periciou, julgou e condenou dois manifestantes em rede nacional, ignorando voluntariamente os inúmeros mortos e feridos provocados pela ação da Polícia Militar desde as manifestações de junho.  A farsa estava montada.

A criminalização das lutas

À partir disso os setores conservadores, com apoio do PT trataram de orquestrar um forte consenso reacionário se utilizando do sensacionalismo e a repetição exaustiva das imagens na TV. Já está claro que toda a máquina podre do sistema está em funcionamento. Ao inventarem a “doença”, trouxeram também o “remédio amargo”: a discussão do projeto de lei 499/2013 à toque de caixa e que regulamenta judicialmente o “terrorismo”. Do Rio de Janeiro veio também a  acusação absurda de que os manifestantes recebem 150 reais para irem às manifestações e a sugestão do Secretário de Segurança Pública pela proibição de máscaras nas manifestações e o endurecimento das penas aos manifestantes. Ou seja, os terroristas serão todos aqueles que se manifestem por direitos sociais. Também os chamados “Grupos de Direitos Humanos” estão sendo criminalizados, perseguidos e ameaçados por buscarem defender os manifestantes, ou mesmo os pobres de maneira geral que sofrem ações violentas da polícia como é o caso das recentes chacinas (Maré, Juramento, dentre outras) ou até mesmo de ações fascistas como foi a tortura ao adolescente negro no bairro do Flamengo.

Além disso, já é fato notório e conhecido, que a Polícia Militar, a Agência Brasileira de Inteligência e a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos [1] vigiam, provocam, sabotam, montam farsas jurídicas, se infiltram e mapeiam possíveis “ameaças” à realização da Copa do Mundo. Qualquer semelhança com as leis do regime militar de 1964 não é coincidência. Aliás, para quem acha que a comparação é exagerada, uma portaria assinada por Dilma em 20 de dezembro de 2013 permite ao exército “o combate ao bloqueio de vias públicas e a ofensiva contra a sabotagem nos locais de grandes eventos”. A justiça como vimos manteve-se como de costume, ao lado dos ricos e poderosos e prepara o terreno para um processo de criminalização coletiva que tem de ser denunciado por todos os movimentos populares, organizações políticas e sindicatos.

Desafios para a esquerda, para a luta e os trabalhadores

Apesar dessa ofensiva reacionária já ter sido esperada por todos/as, devemos ter cuidado para não cair nas várias armadilhas que ela coloca. Se aproveitando de um fato isolado, a mídia está trabalhando (assim como o fez desde junho) para “separar” os manifestantes entre dois grupos (vândalos e manifestantes) e assim, melhor nos dividir. Tal ação visa esvaziar o potencial de radicalidade e de adesão aos protestos. Forçam assim, a muitos setores de esquerda que acreditam na via eleitoral, a se comprometerem como “moderados” durante o período da Copa do Mundo, como se isso fosse evitar a repressão generalizada que se anuncia. O fato é que devemos nesse momento, igualmente ter calma e serenidade, evitando a tentação fácil do sectarismo e da miopia política que faz o trabalho que o inimigo deseja, enxergando bodes expiatórios e inimigos no interior das nossas fileiras ou apenas olhando para dentro das nossas organizações.

Precisamos também, reforçar as instâncias coletivas de decisão e diálogo, como por exemplo, as assembleias que estão sempre continuamente realizadas antes dos atos contra o aumento, para traçar estratégias e definir caminhos a serem seguidos coletivamente por todos (ou o máximo possível de pessoas). O aprofundamento dos ataques reacionários exige de nós maturidade e avanço na organicidade das lutas, é preciso trabalhar com critérios de segurança e ação para não facilitarmos a repressão policial e tampouco permitir atitudes individualistas ou desastradas ou pior, de infiltrados, que ponham em risco a nossa segurança coletiva nesse momento.

Precisamos trabalhar para de fato construir uma unidade nas ruas e nas bases. Lutar por reivindicações concretas é o caminho mais efetivo para trazer a população para o nosso lado, superando a hegemonia da máquina midiática. Precisamos agitar pautas que dialoguem com a realidade dos oprimidos e não cairmos na armadilha montada pela burguesia de nos isolar politicamente ou nos dividir num momento em que esta e os políticos unem-se para tentar nos esmagar.

Não escondemos as diferenças estratégicas ou de princípios que existem no interior da esquerda e não iremos neste momento “varrer tudo para debaixo do tapete”. Mas precisamos, para além das diferenças construir um forte consenso popular nas ruas. Sem a presença massiva de organizações e movimentos de trabalhadores corremos o risco de passar esse período apenas na defensiva, que é exatamente o que a burguesia e o governo do PT desejam e estão articulando.

É preciso que a classe trabalhadora se articule e conquiste às ruas, junto de suas demandas. E como um pequeno grão de areia nesse universo, essa é a tarefa que a FARJ modestamente está comprometida a realizar nesse curto período de luta e reação.

Protestar não é crime!

Pela redução da passagem!

Lutar, criar, poder popular!

[1] Brasil espiona manifestantes para evitar danos à Copa do Mundo. Blog Estadão. 07/02/2014. Disponível em <http://blogs.estadao.com.br/link/brasil-espiona-manifestantes-para-tentar-evitar-danos-a-copa/>;.

[2] Mortos e Feridos em Protesto. Centro de Mídia Independente.  Disponível em <http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2014/02/528893.shtml

 

 

fev 162014
 

 

A VERDADEIRA FACE DA VIOLÊNCIA!

Na última assembléia do Bloco de Lutas, ocorrida no dia 12/02 no Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (SIMPA) nos esbarramos com mais uma covarde investida do aparato repressivo do Estado que de forma ostensiva tem encaminhado policiais a paisana para atos e instâncias organizativas não só do Bloco de Lutas mas do conjunto dos setores em luta no Estado.

No entanto, dessa vez essa covarde atividade de espionagem que conspira contra o direito de reunião e organização mostrou a sua verdadeira face, deixando evidente que para os de cima a repressão indiscrimida através de métodos da mais perversa e sádica violência é o que lhes interessa para manter “status quo”. Na assembléia em questão, por casualidade, companheiros desmascararam a atividade de um policial a paisana que trabalhava para a empresa de segurança Aquilla, responsável por essa prestação de serviço ao sindicato. Este agente, infiltrado propositalmente no espaço do sindicato com o intuito de investigar as movimentações que lá ocorrem, vinha fotografando diversas pessoas, entre elas o filho de uma companheira de nossa organização.

O fato só foi descoberto quando nossa militante foi informada por seu filho que estava sendo fotografado e provocado através de sinais pelo agente. Ao ser abordado por companheiros presentes na assembléia o caso imediatamente veio a tona quando se observou as dezenas de fotos da criança e companheiros militantes presentes na assembléia, fotos que o agente foi obrigado a apagar por diversos companheiros que o abordaram.

Essa covarde intimidação não é um caso isolado e não se dirige exclusivamente a nossa companheira que teve seu filho ostensivamente intimidado pelo covarde agente na assembléia, mas sim parte de um processo repressivo que segue se intensificando dia-a-dia.

Nas jornadas de luta de 2013, fomos atacados exaustivamente por este aparato repressivo, com atos reprimidos por milhares de bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral, balas de borracha, spray de pimenta e cassetetes que vitimaram os diversos protagonistas das jornadas de Junho, quilombolas, indígenas e educadores que lutavam pelo pagamento do piso do magistério além da investida repressiva do 1 de Outubro, quando inúmeros companheiros e organizações que integram o Bloco de Lutas (entre elas nossa organização) foram vítimas de mandados de busca e apreensão, onde a polícia civil aprendeu de forma indiscriminada computadores, cadernos e livros de estudo e fotografou quadros “suspeitos”.

Antes da investida do 1 de outubro nossa organização foi alvo de uma invasão ilegal por parte da polícia civil no mês de junho, quando esta arrombou o Ateneu Libertário, local onde nos concentramos, e aprendeu materiais de propaganda, como tintas e solventes buscando apresentá-los como artefato explosivo, além de aprenderem livros de nossa biblioteca junto do cadastro das pessoas associadas na mesma, apresentando estes livros em uma coletiva como uma prova de crime “aprendemos vasta literatura anarquista” afirmava o delegado Ranolfo Vieira Jr. então chefe da Polícia Civil. Até hoje não tivemos o conhecimento do mandado judicial para tal investida e os poucos livros de nosso acervo devolvidos foram na casa de um companheiro, em uma nítida manobra com o intuito de nos intimidar.

De norte a sul do país, onde as ruas arderam dando um basta a neurótica vida que suportam os de baixo com a precarização cada vez mais acentuada de direitos básicos, como educação e saúde, ao passo que o governo investe fortunas galopantes para garantir a copa e as olimpíadas esse expediente foi via de regra comum, alterando na intensidade de sua manifestação, mas nunca em sua disposição de ir até as últimas consequências para garantir a tal “manutenção da ordem”.

O que temos visto nesse ano que se inicia é uma intensificação destas medidas repressivas. Nas últimas semanas os oligopólios da grande mídia, em especial as organizações Globo, a qual a RBS é afiliada, tem desatado uma verdadeira guerra psicológica, se aproveitando de um estúpido acidente que trágica e lamentavelmente vitimou a vida e a família de um trabalhador cinegrafista, para tensionar a favor da aprovação do projeto de lei antiterrorista no Senado, onde possuem um tal “defensor dos direitos humanos” conhecido como Paulo Paim/PT como um dos principais agitadores da lei, buscando desatar um golpe traumático contra os setores populares organizados que não se fiam pela política de pacto social que hoje costuram o governo Dilma junto às patronais e às burocracias sindicais e de movimentos populares cooptados. A aprovação desta lei tende a abrir precedentes para uma enxurrada de prisões, mandados de busca e apreensões e por que não, torturas e assassinatos? Essa campanha parte hoje do Rio de Janeiro, mas suas consequências já estão se nacionalizando a passos largos e caso os setores populares não respondam a altura o retrocesso será enorme.

Essa intensificação se manifestou por essas terras na última assembléia do Bloco de Lutas. Até então, todos nós, militantes dos mais distintos setores, organizados ou não, sabíamos e denunciávamos que vínhamos sendo perseguidos e vigiados de forma ostensiva, com o grampo de telefones e comunicações virtuais, assim como em muitos casos com agentes de campana nas proximidades de nossas residências. No entanto, essa foi a primeira vez que se revelou a investida policial contra crianças, filhos de militantes. Perseguir e investigar filhos de integrantes das “Forças Oponentes” seria uma clausula secreta do documento “Garantia da Lei e da Ordem”, aprovado em dezembro pelo “progressista” ministro da defesa Celso Amorim? Estão nossos filhos agora sujeitos a prisão, a violação e a tortura, como estiveram inúmeros filhos de milhares de companheiros que lutaram contra o regime de Terror de Estado que se abateu no país há 50 anos, impulsionado por uma sacro santa aliança entre oligopólios da grande mídia (a exemplo das organizações globo), associações patronais (a exemplo da FIERGS e FIESP, assim como dos grupos Gerdau e Ultragás), o aparato repressivo e as oligarquias? Após grampearem os passos de nossas crianças e intimidá-las pretende o Estado e as classes dominantes também sequestrar os filhos de nossas companheiras no momento de seu parto, para trocar suas respectivas identidades?

Ai está a verdadeira face do Estado e suas classes dominantes, o lobo em pele de cordeiro, que fala como vítima da violência quando desata esta violência indiscriminadamente, seja nos atirando em vilas sem saneamento básico, saúde, educação, com a falta de água e luz, na exploração do trabalho precário e sem direitos, seja na força bruta para manter essa situação. Essa é a verdadeira situação que buscam encobrir com um forte apelo sensacionalista as hienas de plantão através do seu monopólio da informação.

Ressaltamos que desde o ocorrido estamos em contato com a direção do SIMPA, que pronto afastou o agente em questão e se comprometeu em tratar o assunto em caráter de urgência em suas respectivas instâncias, assim como seguir solidário nas mobilizações do Bloco de Lutas.

Seguiremos mobilizados e não nos intimidaremos com mais este covarde ataque.

Barrar a criminalização e a lei antiterrorista!

Não se intimidar! Não se desmobilizar! Rodear de solidariedade todos os que lutam!

Não passarão!

Federação Anarquista Gaúcha – FAG

14 de Fevereiro de 2014.

 

fev 022014
 

Nossa concepção organizativa do anarquismo

Todos os grupos e organizações da CAB, assim como aqueles interessados em ser seus membros, devem concordar, defender e aplicar esta concepção de anarquismo, que consideramos o mínimo necessário para o início dos trabalhos conjuntos. O anarquismo defendido pela CAB é compreendido a partir dos princípios político-ideológicos e pela sua estratégia geral colocados a seguir.

Princípios políticos e ideológicos

A compreensão, a defesa e a aplicação dos seguintes pontos:

a) Do anarquismo como ideologia e, assim, como um sistema de  idéias, motivações e aspirações que possuem necessariamente uma conexão com a ação no sentido de transformação social, a  prática política.

b) De um anarquismo em permanente contato com a luta de classes dos movimentos populares de nosso tempo e funcionando como ferramenta de luta e não como pura filosofia ou em peque nos grupos isolados e sectários.

c) De um conceito de classe que inclui todas as parcelas de explorados, dominados e oprimidos da nossa sociedade.

d) Da necessidade do anarquismo retomar seu protagonismo social e de buscar os melhores espaços de trabalho.

e) Da revolução social e do socialismo libertário como objetivos finalistas de longo prazo.

f ) Da organização como algo imprescindível e contrária ao individualismo e ao espontaneísmo.

g) Da organização específica anarquista como fator imprescindível para a atuação nas mais diversas manifestações da luta de classes. Ou seja, a separação entre os níveis político (da organização específica anarquista) e social (dos movimentos sociais, sindicatos, etc.).

h) Da organização anarquista como uma organização de minoria ativa, diferindo-se esta da vanguarda autoritária por não se considerar superior às organizações do nível social. O nível político é complementar ao nível social e vice-versa.

i) De que a principal atividade da organização anarquista é o trabalho/inserção social em meio às manifestações de luta do povo.

j) De que a ética é um pilar fundamental da organização anarquista e que ela norteia toda a sua prática.

k) Da necessidade de propaganda e de ela ter de ser realizada nos terrenos férteis.

l) Da lógica dos círculos concêntricos de funcionamento, dando corpo a uma forma de organização em que o compromisso está diretamente associado com o poder de deliberação. Da mesma maneira, uma organização que proporcione uma interação eficiente com os movimentos populares.

m) De que a organização deve possuir critérios claros de entrada e posições bem determinadas para todos que queiram ajudar (níveis de apoio /colaborador).

n) Da autogestão e do federalismo para a tomada de decisões e articulações necessárias, utilizando a democracia direta.

o) A busca permanente do consenso, mas, não sendo possível, a adoção da votação como método decisório.

p) Do trabalho com unidade teórica, ideológica e programática (estratégica / de ação). A organização constrói coletivamente uma linha teórica e ideológica e da mesma forma, determina e segue com rigor os caminhos definidos, todos remando o barco no mesmo sentido, rumo aos objetivos estabelecidos.

q) Do compromisso militante e da responsabilidade coletiva. Uma organização com membros responsáveis, que não é complacente com a falta de compromisso e a irresponsabilidade. Da mesma forma, a defesa de um modelo em que os militantes sejam responsáveis pela organização, assim como a organização seja responsável pelos militantes.

r) Os militantes que compõem a organização têm, necessariamente, de estar inseridos em um trabalho social, bem como se ocupar de atividades internas da organização (secretarias, etc.)

Estratégia geral

A estratégia geral do anarquismo que defendemos baseia-se nos movimentos populares, em sua organização, acúmulo de força, e na aplicação de formas de luta avançada, visando chegar à revolução e ao socialismo libertário. Processo este que se dá conjuntamente com a organização específica anarquista que, funcionando como fermento/motor, atua conjuntamente com os movimentos populares e proporciona as condições de transformação. Estes dois níveis (dos movimentos populares e da organização anarquista) podem ainda ser complementados por um terceiro, o da tendência, que agrega um setor afim dos movimentos populares.

Essa estratégia, portanto, tem por objetivo criar e participar de movimentos populares defendendo determinadas concepções metodológicas e programáticas em seu seio, de forma que possam apontar para um objetivo de tipo finalista, que se consolida na construção da nova sociedade.

 

 

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O que é a CAB?

A Coordenação Anarquista Brasileira (CAB) é um espaço organizativo fundado em 2012 que articula nacionalmente organizações e grupos anarquistas que trabalham com base nos princípios e na estratégia do anarquismo especifista. A CAB surge como resultado dos dez anos do processo de organização, iniciado em 2002, com o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO). Durante essa década, avança em termos político-ideológicos e em relação aos trabalhos nos movimentos populares. A fundação da CAB marca a passagem de um fórum para uma coordenação nacional, evidenciando um aumento de organicidade e fundamentando as bases para o avanço rumo a uma organização anarquista brasileira.

 

fev 022014
 

A Revista Socialismo Libertário é um orgão de propaganda da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). Desde o Congresso Fundacional da CAB, realizado em 2012, estão sendo elaborados por nossas organizações materiais de orientação político-ideológica com o objetivo de socializar o nosso debate. Seguem abaixo as duas publicações da Revista.

1. Socialismo Libertário – Número 1 – Revista da Coordenação Anarquista Brasileira – Junho de 2012

2. Socialismo Libertário – Número 2 – Revista da Coordenação Anarquista Brasileira – Janeiro de 2014