jul 252017
 

NOTA DA COORDENAÇÃO ANARQUISTA BRASILEIRA (CAB) em https://anarquismo.noblogs.org/?p=784

 

TODA MULHER NEGRA É UM QUILOMBO!

“[…]. É preciso compreender que classe informa a raça. Mas raça, também, informa a classe. E gênero informa a classe. Raça é a maneira como a classe é vivida. Da mesma forma que gênero é a maneira como a raça é vivida. A gente precisa refletir bastante para perceber as intersecções entre raça, classe, gênero, de forma a perceber que entre essas categorias existem relações que são mútuas e outras que são cruzadas. Ninguém pode assumir a primazia de uma categoria sobre a outra.”

Ângela Davis.

Nós Negros e Negras e a condição de escravidão.

A estimativa é que, ao longo de 400 anos, tenham sido retirados da África 12,5 milhões de pessoas, em uma das maiores migrações forçadas da história. O Caribe e a América do Sul receberam 95% dos/as negros/as que chegaram às Américas. O Brasil recebeu quase a metade dos 11 milhões de pessoas escravizadas desembarcadas nas Américas.

O comércio da escravidão serviu como sustentáculo para a criação do capitalismo, quer pela acumulação de riquezas nas metrópoles – uma vez que o tráfico transatlântico foi o que gerou receitas para a criação das indústrias na Europa –, quer pelo próprio mercado da escravidão, que foi o negócio mais rentável nas Américas e que possibilitou a feitorização das colônias ameríndias para os séculos de exploração brutal e desenfreada das nossas “veias abertas”: as empresas negreiras eram altamente sofisticadas do ponto de vista empresarial, trabalhavam com altíssimas taxas de lucro – cerca de 20% líquidos por viagem*.

A colonização não teve apenas um sentido econômico central, possuiu também outros sentidos condicionantes, como o político e o social. Durante a colonização, houve um contato violento entre as culturas negras, indígenas e europeias, envolvidas em um projeto racista da elite brasileira, que investiu em um embranquecimento gradual e silencioso, mascarado de “democracia racial”. Moramos num lugar comum, perto daqui, chamado Brasil, feito de três raças tristes como já disse Belchior, mas esse mito das três raças que geram pela harmonia delas uma nova etnia, a brasileira, não é mais do que pura mentira, esconde toda a violência que sofreram as raças subjugadas nesse processo de dominação. É desse mesmo mito que surge as pérolas que dizem: “no Brasil não existe racismo”, “eu não sou racista” e que não conseguem enxergar que mesmo não havendo uma política de diferenciação, como foi o aparthaid dos EUA e da África do Sul, a integração brasileira foi tão sangrenta quanto. A verdade é que a formação do povo brasileiro surgiu de um estupro colonial, sagrado e paternal: a supremacia branca através do poder do Estado provocou um genocídio do povo negro e indígena, explorando nosso povo para a produção de riquezas. A palavra “estupro” é fundamental na descrição: concebido com a intenção de intimidar e aterrorizar as mulheres, os proprietários de escravos encorajavam seu uso terrorista para colocar as mulheres negras em posição de inferioridade. Praticamente todas as narrativas sobre a escravidão no século XIX trazem relatos de violência sexual sofrida pelas mulheres nas mãos de senhores e feitores, a conjugação da supremacia branca e masculina. Os portugueses já eram um povo mestiço antes da chegada ao Brasil, devido seu contato histórico com sarracenos, árabes e africanos. Por isso, não detinham o medo de “poluir-se” como tinham os dominadores norte-americanos e sul-africanos. Logo, parte do projeto de embranquecimento das nossas elites vinham pela prática do estupro. Já a palavra “sagrado” coloca-se em questão, pois tudo isso foi feito com as bênçãos de uma igreja branca e patriarcal (papa), de imagem e semelhança de seus deuses brancos, na qual proliferava aos quatro ventos e em favor dos ricos, que negros e negras não tinham alma à serem salvas.

Com a abolição formal da escravidão, não houve a tão sonhada integração do negro à sociedade de classes, o que gerou criminalidade e encarceramento. A opção por imigrantes não foi só uma opção de trabalho, mas de branqueamento da população, em uma “segunda fase” do projeto das elites brancas. Vivemos em uma sociedade racista, que explora e maltrata nosso povo negro desde violências policiais nas periferias urbanas e nas comunidades quilombolas, a violências simbólicas e institucionais.

Violências de gênero, classe e raça.

O racismo brasileiro encontra na misoginia um mecanismo eficiente de opressão. O racismo institucional atinge as mulheres negras assustadoramente, tendo em vista que são as mais afetadas pelas desigualdades socioeconômicas de um país ainda escravocrata e que vive um retrocesso dos direitos conquistados com muita luta pelos/as de baixo. Todas as reformas, Propostas de Emenda Constitucional e Medidas Provisórias arquitetadas pelos de cima vêm para atingir todos/as os/as de baixo, mas que terão impacto diferenciado sobre grupos historicamente esquecidos como as mulheres negras que são as que menos terminam o Ensino Fundamental e Médio, tampouco o Ensino Superior. São também as que mais trabalham, porém com rendimento mínimo e em condições de subemprego. São as que menos recebem assistência do SUS (como menor tempo de atendimento, maior mortalidade infantil e por doença falciforme etc.), o saneamento básico não chega em todas as nossas comunidades, fazendo com que sejamos as mais atingidas por doenças. De acordo com o mapa da violência (2015) o homicídio das mulheres negras cresceu em 54,2%. Em relação a violência doméstica 58,86% são de mulheres negras. A mortalidade materna das mulheres negras também é a maior com 53,6% e são as que mais precisam abdicar de algum aspecto de nossas vidas para dar conta de todas as barreiras colocadas pela supremacia branca e patriarcal – seja o trabalho que se quer, o lazer que se gosta, a família unida, dentre tantos outros.

Nos centros penitenciários femininos, segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de 2014, duas a cada três detidas eram negras (68%). Das detidas, 57% eram solteiras, 50% tinham o Ensino Fundamental Incompleto e 50% tinham entre 18 e 29 anos. O Brasil é o 5º maior com população carcerária feminina. Esse é só um retrato do extermínio e da criminalização da população pobre, negra e periférica que tem suas vidas ceifadas através do braço armado do Estado – a polícia. Ainda de acordo com o Infopen, o tráfico de drogas é o crime que mais prende mulheres no Brasil. Esse número chega a 68%, seguido por roubo (10%) e furto (9%).

A guerra às drogas justifica a morte do povo negro nas favelas. E são as mulheres negras que mais sofrem com o extermínio de seus filhos/as, tendo em vista que os pais abandonam as crianças mesmo até antes de nascer.

A mídia contribui para a sensualização do corpo da mulher negra, o que é determinante para os casos de estupros. Como exemplo típico, é a mulher negra e jovem (e por que não dizer, nordestina no caso do Brasil?) que é a mais objetificada no Carnaval. Sem falar nas propagandas de cerveja, carro e outras mercadorias que, para serem vendidas, têm seu valor adjetivado pelo corpo feminino, na maioria, corpo de mulheres negras. A mídia reforça e naturaliza a concepção de que “a carne mais barata do mercado é a negra” e serve para apreciação e uso pelo homem.

As mulheres negras também sofrem quando não podem manifestar sua espiritualidade, cultura e religiosidade. São inúmeras as violências contra a umbanda e o candomblé – religiões de matriz africana – além da criminalização. Em 2015, casos como o da menina Kaylane Campos, atingida com uma pedrada na cabeça, aos 11 anos, no bairro da Penha, na Zona Norte do Rio, quando voltava para casa de um culto e trajava vestimentas religiosas candomblecistas, e de um terreiro de candomblé que foi incendiado em Brasília nos mostra o quanto a intolerância aliada à supremacia branca e cristã produz racismo e violência, disseminando o ódio.

Negras Resistências

Cada mulher negra que se mantém caminhando e enfrenta o racismo e o machismo em sua rotina diária é um ícone de força e celebração da negritude.

Desde o início da escravização no Brasil as mulheres negras permanecem firmes em resistências. Quer por meio de ação direta, como faziam as nossas velhas pretas nas cozinhas dos brancos, quer por meio da resistência organizada nos quilombos. Em muitos casos, a resistência das mulheres negras envolvia ações mais sutis do que revoltas, fugas e sabotagens, incluía por exemplo aprender a ler e a escrever de forma clandestina, bem como repassar para as mais novas conhecimentos tidos como subversivos pelos senhores.

Atualmente, a organização em movimentos sociais mistos, porém auto-organizados por identidade de gênero ou racial, são nossas ferramentas de luta. Só a organização e a autodefesa das mulheres negras contra o machismo, a supremacia branca, o capitalismo e o Estado podem nos libertar. Temos ciência que a luta parlamentar não nos trará frutos de resistência, pelo contrário, fortalecerá as novas correntes de escravidão.

O silenciamento de Tereza de Benguela – mais uma mulher negra negligenciada pela história brasileira – representa uma forma de fazer história para a qual não podemos nos curvar. Uma história branca, machista e eurocêntrica, que entoa muitos feminismos, mas que não cabe nas nossas fileiras. Grita a necessidade de construirmos um feminismo nosso, não eurocêntrico, com nossas raízes indígenas e quilombolas.

Viva Dandara!

Viva Tereza de Benguela!

Viva Negra Bonifácia!

 ________________________

[1] * http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252011000100021&script=sci_arttext

jul 212017
 

Reproduzimos abaixo a nota divulgada hoje pelo Fórum Anarquista Especifista (FAE-Bahia), em que Angela Davis se soma a Campanha pela Liberdade de Rafael Braga.

Jovem e negro Rafael Braga é alvo certeiro de extermínio do sistema racista brasileiro, e assim como milhões deles se encontra encarcerado sem nada dever a sociedade. Rafael Braga portava um pinho sol durante as manifestações de 2013, o qual usava para limpar carros, e em meio a milhões de manifestantes foi o único preso e condenado. Para nós do FAE, Rafael Braga é o símbolo do Racismo que se encontra presente sistematicamente dentro do Estado, dentro do sistema carcerário 67% dos presos são negros e aproximadamente um terço dos que estão na prisão nunca foram julgados; muitos deles continuam presos mesmo depois de já terem cumprido a pena. A prisão de Rafael Braga simboliza nada mais que a prisão de milhares de jovens negros que são encarcerados e esquecidos, realidade dada diferente para os brancos ricos que mandam e demandam neste país. Lutemos então porque é a arma que nos resta, mesmo quando este sistema quer nos ver mortas/os. É através da luta que estamos juntas/os na campanha permanente pela liberdade de Rafael Braga, campanha esta que começou no Rio de Janeiro em dezembro de 2013, iniciada por militantes e ativistas de movimentos sociais, movimento negro e de periferia em assembleias populares. Desde então, a campanha se dá em vários lugares do país, buscando construir uma voz coletiva que ecoe e revele as violências cometidas pelo Estado Brasileiro. Junta também nesta luta, Angela Davis, ativista norte-americana que integrou o movimentos dos Panteras Negras. Durante a década de 70 foi considerada a ativista negra mais perigosa e teve sua prisão decretada motivada pelo ódio das forças estatais a sua militância, a campanha pela sua soltura teve caráter internacional e entendendo bem o caráter de extrema importância pela Liberdade a Rafael Braga é que a ativista soma e apoia esta luta!!!!

Pela Liberdade de Rafael Braga Vieira!!!

#AngelaDavis

Para mais informações acompanhem a página da Campanha Pela Liberdade de Rafael Braga clicando AQUI.

mar 242016
 

RODA DE ESTUDOS ANARQUISTA NEGRA BONIFÁCIA (REANB)

Espaço Público da Organização Resistência Libertária (ORL-CAB)

Somos uma Roda de estudos, mas não só estudaremos, refletiremos ou criticaremos academicamente por criticar. Nos propomos a ser um espaço de propaganda e agitação. Objetivamos ser um lugar de autoformação; autoidentificação; fortalecimento da luta antiautoritária Negra e produção de teoria e prática, conforme nossos diálogos e vivências com o cotidiano racista da sociedade capitalista. Uma Roda de Estudos sobre a luta antiautoritária Negra é em essência um instrumento de intervenção política revolucionária; é um espaço que te convida para entrar na Roda e um lugar de resistência e autodefesa nossa, pessoas negras, desde baixo e à esquerda sempre.

A Roda de Estudos Anarquista Negra Bonifácia é uma ferramenta que visa contribuir com a luta cotidiana, construindo com COR os alicerces para a revolução social, a revolução Negra e a real liberdade e igualdade política, econômica e social. Queremos denegrir todos os lugares, ruas, becos e vielas, colocar fogo no engenho, na casa grande, no capital e no racismo!

A Roda antiautoritária recebe o nome da Negra Bonifácia. Mas quem foi Bonifácia? Bonifácia foi uma mulher escravizada desde o nascimento, e que foi acusada de ter matado o filho de “seu proprietário”, Joaquim Carpina, fato que ela negou ter cometido. Num julgamento de cartas marcadas, Bonifácia foi condenada ao enforcamento, vindo a ser morta no dia 22 de setembro de 1842, no campo do paiol; hoje, atual Passeio Público. Provavelmente Bonifácia nasceu nessas terras, que nunca foram alencarinas e nunca serão, pois o território em que pisamos de ampla maioria Negra, quilombola, camponesa e indígena não pode receber o nome de uma família racista e defensora da escravidão.

Espaço de propaganda e agitação

Na propaganda, difundiremos materiais produzidos pela Roda de Estudos sobre a luta Antiautoritária Negra. Podem ser lançados: notas de escurecimento, zines, textos e materiais online, além de textos que resgatem a memória de militantes ou produções de Organizações que possuam uma perspectiva libertária.

Na agitação viemos para quebrar as correntes da dominação e não nos silenciarmos diante da exploração e genocídio do povo Negro e pobre. Unir os quilombos periféricos e lutar contra o Estado assassino que só nos oferece migalhas de forma gradual é nosso dever.

Esperar um salvador da pátria ou que qualquer partido possa fazer algo ou parar o holocausto Negro é continuar com uma mente colonizada, subserviente e hierarquizada, por isso é fundamental a propagação da voz e luta sob a perspectiva Negra. Quantas Negras e quantos Negros não morreram com a farsa gradual do “fim da escravidão”? Fim do tráfico negreiro, Lei do ventre Livre, Lei dos sexagenários e a Lei Áurea, foram leis com uma perspectiva de fim gradual, uma falsa abolição, mas, enquanto isso, nas senzalas, porões e ruas as surras continuavam; os gritos dos açoites faziam parte do cotidiano; Um F feito em brasa no rosto de quem tentava fugir era mais uma marca deixada pelo sistema escravista; órgãos genitais eram arrancados, entre outros horrores feitos pela supremacia branca capitalista.

A tradição de luta Negra é longa e aprenderemos com nossa vasta experiência. É necessário forjarmos práticas educativas antirracistas, pois se dependermos do Estado ele nos direcionará para uma história “oficial”, uma educação acorrentada, que não nos leva para nossa raiz, nossa ancestralidade genitora. Zumbi e Dandara nos dão o exemplo e dizem: todo o povo Negro é livre ou não tem conversa. A Roda de estudos vem para semear, cultivar e partilhar novas e ancestrais práticas educativas de nosso povo, contribuindo com nossa total emancipação. É o nós por nós, já que “as ferramentas do senhor nunca vão desmantelar a casa grande” (Audre Lorde)

Palavras ESCURAS como referência para a LIBERDADE e IGUALDADE

Pelejaremos pela Liberdade cerrando as correntes que nos prendem, assim como os Negros escravizados da embarcação Laura II em 1839 (escuna que passava pelo litoral cearense com destino ao Rio de Janeiro). Os Negros rebelados tomaram a embarcação e fugiram pela praia de Arapaçu (atual Iguape). Os rebelados foram executados, assim como milhares de pessoas Negras foram e são nos dias de hoje. Sabemos que o genocídio prossegue e as chacinas estão aí bem presentes em nosso cotidiano, “mas não temos nada a perder senão as nossas correntes” (Assata Shakur), então é fundamental nossa auto formação para nossa autodefesa e empoderamento da luta antiautoritária Negra.

Aperrearemos pela Igualdade com a ferramenta da Interseccionalidade, pois não enxergamos hierarquia de opressões e visualizamos a intersecção da raça, classe e gênero. Concordamos com a Negra, feminista e lésbica Audre Lorde, que dizia:

“Não existe hierarquia de opressão. Eu não posso me dar ao luxo de lutar por uma forma de opressão apenas. Não posso me permitir acreditar que ser livre de intolerância é um direito de um grupo particular”.

METODOLOGIA

A Roda de estudos mensalmente se reunirá, podendo também organizar alguma atividade. Debateremos a partir de textos, documentários, elementos conjunturais e demandas pessoais. Os diálogos informais e ações de cunho social que o grupo possa realizar será uma outra ferramenta importante de fortalecimento da luta antiautoritária Negra.

A proposta principal é que o grupo seja um espaço de problematização de situações, com o intuito de elaborar coletivamente sugestões de mudança ou intervenção na realidade, promovendo ações concretas sobre ela.